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IV Conferência Indígena da Ayahuasca

Entre os dias 25 e 29 de setembro de 2022 aconteceu a IV Conferência Indígena da Ayahuasca, tendo como anfitrião o Instituto Yorenka Tasorentsi (IYT), em sua sede localizada no município Marechal Thaumaturgo, Acre Brasil, às margens do Rio Juruá. Entre a terceira e a quarta conferência, houve uma grande articulação entre povos e parceiros, o que contribuiu para o destaque da participação de representantes de 35 povos indígenas do Brasil e de outros países como Colômbia, Equador, Peru, México e Canadá, organizações indígenas, parceiros institucionais, pesquisadores e outros convidados não indígenas.

Entre os dias 25 e 29 de setembro de 2022 aconteceu a IV Conferência Indígena da Ayahuasca, tendo como anfitrião o Instituto Yorenka Tasorentsi (IYT), em sua sede localizada no município Marechal Thaumaturgo, Acre Brasil, às margens do Rio Juruá. Foi realizada pelo IYT e a Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ), com o diferencial de ter sido autofinanciada com recursos captados pelo próprio instituto junto a parceiros que colaboram com as pautas levantadas pelos povos indígenas com as pautas levantadas pelos povos indígenas.

Entre os dias 25 e 29 de setembro de 2022 aconteceu a IV Conferência Indígena da Ayahuasca, tendo como anfitrião o Instituto Yorenka Tasorentsi (IYT), em sua sede localizada no município Marechal Thaumaturgo, Acre Brasil, às margens do Rio Juruá.

Instituto Yorenka Tasorentsi

Entre a terceira e a quarta conferência houve uma grande articulação entre povos e parceiros, o que contribuiu para o destaque da participação de representantes de 35 povos indígenas do Brasil e de outros países como Colômbia, Equador, Peru, México e Canadá, organizações indígenas, parceiros institucionais, pesquisadores e outros convidados não indígenas. Os povos presentes foram: Apolima-Arara, Huni Kuĩ, Jaminawa-Arara, Kuntanawa, Nawa, Noke Koi, Nukini, Puyanawa, Shanenawa, Shawãdawa, Yawanawá, Apurinã (Pupykary), Manchineri, Ashaninka, Ashaninka del Alto Perene, Yanesha del Puerto Yunnako, Nomatsiguenka, Ashaninka y Machiguenga del Rio Apurimac-Cusco, Yaminawa, Marubo, Yepá Mahsã-Tukano, Anishinaabe, Arhuaco, Tubú Hʉmmʉrimasa, Inga/Union de Médicos Indígenas Yageceros de la Amazonia Colombiana (UMIYAC), Kichwa de Sarayaku, Kofan, Jiaki, Wixárika, Potiguara, Omágua Kambeba, Shipibo-Konibo, Yanomami, Guarani Mbyá, Siona. Foram cerca de 389 participantes, contando com 244 indígenas e 145 não indígenas.

As temáticas discutidas aprofundaram assuntos que já vem sendo debatidos desde a primeira conferência, acrescidos de outros que contribuíram para as excelentes reflexões realizadas ao longo do evento. Entre os principais temas abordados estão: a proteção dos territórios da vida na Amazônia e sua relação com o mundo; os desafios enfrentados pelas gerações atuais para manutenção da cultura de seus povos; a ética que legitima ou não as formas de compartilhar as medicinas indígenas; os aspectos legais e a responsabilidade de atenção sobre a comercialização e a concessão de patentes; as novas frentes de atuação que demandam uma articulação entre lideranças espirituais; a importância dos espaços sagrados para as práticas espirituais; a valorização de intercâmbios e trocas de experiências, entre outros.

A realização da V Conferência Indígena da Ayahuasca está prevista para 2024.

INSTITUTO YORENKA TASORENTSI

As experiências apresentadas por cada povo indígena apontaram uma diversidade de caminhos para lidar com questões diversas e muitas vezes comuns, o que demonstra a importância desse espaço de diálogo e intercâmbio. Como resultante dos intensos debates e reflexões, a “Carta da IV Conferência Indígena da Ayahuasca” apresenta posicionamentos e alertas, indica preocupações e prioridades e, sobretudo, convoca ao diálogo com respeito. Além de material escrito, também foram realizados registros visuais e audiovisuais, com o intuito de criar materiais de referência para estudo e divulgação dessa temática como um dos pontos fundamentais na pauta dos direitos indígenas. A realização da V Conferência Indígena da Ayahuasca está prevista para 2024. Fica o convite à leitura da “Carta da IV Conferência Indígena da Ayahuasca”, aprovada pela plenária final realizada no dia 29 de setembro de 2022.


Crédito da imagem: Conferência Indígena da Ayahuasca (ayahuascaconferenciaindigena.org)

Carta da IV Conferência Indígena da Ayahuasca

Nós, indígenas dos Povos: Apolima-Arara, Huni Kuĩ, Jaminawa-Arara, Kuntanawa, Nawa, Noke Koi, Nukini, Puyanawa, Shanenawa, Shawãdawa, Yawanawá, Apurinã (Pupykary), Manchineri, Ashaninka, Ashaninka del Alto Perene, Yanesha del Puerto Yunnako, Nomatsiguenka, Ashaninka y Machiguenga del Rio Apurimac-Cusco, Yaminawa, Marubo, Yepá Mahsã-Tukano, Anishinaabe, Arhuaco, Tubú Hʉmmʉrimasa, Inga/Union de Médicos Indígenas Yageceros de la Amazonia Colombiana (UMIYAC), Kichwa de Sarayaku, Kofan, Jiaki, Wixárika, Potiguara, Omágua Kambeba, Shipibo-Konibo, Yanomami, Guarani Mbyá, Siona, reunidos na IV Conferência Indígena da Ayahuasca, realizada de 25 a 29 de setembro de 2022, no Instituto Yorenka Tasorentsi, no município de Marechal Thaumaturgo, Acre, Brasil, sob a coordenação do Instituto Yorenka Tasorentsi (IYT) e da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ), após intensos debates, por meio desta:

Afirmamos que a Ayahuasca é o fio condutor da vida, um conhecimento ancestral que resistiu à colonização e permanece vivo na cultura de diversos povos indígenas, seus guardiões desde os tempos imemoriais. Ressaltamos que os ensinamentos indígenas são uma inspiração diante das mudanças necessárias para proteger a vida no planeta e para revisar a própria ideia de humanidade.

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*Afirmamos que a Ayahuasca é o fio condutor da vida, um conhecimento ancestral que resistiu à colonização e permanece vivo na cultura de diversos povos indígenas, seus guardiões desde os tempos imemoriais. Ressaltamos que os ensinamentos indígenas são uma inspiração diante das mudanças necessárias para proteger a vida no planeta e para revisar a própria ideia de humanidade.

*Conclamamos o reconhecimento e respeito de todos os nossos territórios: físicos, materiais e imateriais, a demarcação das terras indígenas e o respeito aos saberes que as sustentam.

*Destacamos que a espiritualidade dos povos indígenas não se limita a curar o corpo e a mente de indivíduos, mas é um veículo de cura, proteção e comunicação com os territórios e todos os seres que neles habitam, nossos ancestrais, suas histórias, cantos e sonhos. Assim, cuidamos dos seres em todas as suas formas de vida.

Chamamos atenção sobre o papel da juventude de fortalecer os conhecimentos sobre as medicinas indígenas com responsabilidade e criatividade.

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*Nos questionamos sobre os desafios e as oportunidades do momento atual que vivemos no mundo. Chamamos atenção sobre o papel da juventude de fortalecer os conhecimentos sobre as medicinas indígenas com responsabilidade e criatividade. Lamentamos que os jovens não possam ter a mesma relação íntima que tiveram nossos avós, sabemos que temos profundas dores a sanar coletivamente e homenageamos nossas medicinas ancestrais por sua força de cura, ensinamento e de comunicação com os territórios.

*A violência contra as mulheres é um sintoma da doença colonial em nossos territórios. Neste encontro, marcado pela força da presença delas, assumimos um compromisso de cuidar com amor e defender a integridade de nossas crianças, jovens, mães e avós, nos posicionando contra qualquer tipo de violação de seus direitos. Também nos comprometemos com os cuidados com os mais velhos e mais velhas, com nossos anciões.

*Avaliamos os impactos que existem sobre as dinâmicas culturais, políticas e ecológicas de nossas comunidades, vindos da comercialização da biodiversidade e da expansão da ayahuasca e medicinas associadas a ela entre os não indígenas, no presente e no futuro. Estamos atentos para a importância do reflorestamento e a conservação das medicinas indígenas.

*Promoveremos intercâmbios entre os povos indígenas com o objetivo de trocar experiências e orientações sobre a ética dos cuidados e dietas, da alimentação, do respeito aos princípios, da conservação dos nossos diferentes modos de vida, do manejo dos ecossistemas, do fortalecimento de direitos coletivos e da luta pelo fim das violências contra nossas culturas.

Apesar das diferenças territoriais e da distância, a ayahuasca fala a língua de cada um dos povos e revitaliza cada cultura.

INSTITUTO YORENKA TASORENTSI

*Promoveremos intercâmbios com povos indígenas que buscam a ayahuasca como meio de se reconectar com suas espiritualidades e medicinas próprias, com orientação e ensinamento de líderes indígenas espirituais experientes. Apesar das diferenças territoriais e da distância, a ayahuasca fala a língua de cada um dos povos e revitaliza cada cultura.

*Promoveremos intercâmbios entre os espaços e organizações indígenas que estiveram presentes nesta conferência, para conhecermos melhor cada experiência e articularmos ações conjuntas. Reuniremos as experiências de institutos e centros indígenas já existentes para dialogar sobre nossas práticas e desafios, alinhadas às reflexões internas de cada povo ou comunidade sobre as formas de uso das medicinas.

*Promoveremos novos encontros sobre o uso de medicinas indígenas.

Nos preocupa o uso indevido de nossos nomes, nossas palavras e nossos itens de vestimentas tradicionais. Diante desses casos, exigimos o cumprimento da legislação sobre apropriação cultural e o desenvolvimento de novos instrumentos de proteção intelectual e direitos de imagem.

INSTITUTO YORENKA TASORENTSI

*Nos preocupa o uso indevido de nossos nomes, nossas palavras e nossos itens de vestimentas tradicionais. Diante desses casos, exigimos o cumprimento da legislação sobre apropriação cultural e o desenvolvimento de novos instrumentos de proteção intelectual e direitos de imagem.

*Refletimos sobre a construção de um código de ética que possa sugerir formas legítimas de compartilhar as medicinas indígenas com o mundo não indígena, de acordo com os ensinamentos dos mais velhos, aliadas a um trabalho diplomático em nome da justiça e do bem-estar para toda a humanidade.

Afirmamos que a espiritualidade dos povos indígenas não está à venda, mas pode ser compartilhada com uma profunda ética alinhada ao convívio, aos ensinamentos, às formas de se relacionar com os territórios de onde nascem nossos conhecimentos.

INSTITUTO YORENKA TASORENTSI

*Afirmamos que a espiritualidade dos povos indígenas não está à venda, mas pode ser compartilhada com uma profunda ética alinhada ao convívio, aos ensinamentos, às formas de se relacionar com os territórios de onde nascem nossos conhecimentos. E quando isso aconteça, deverão ser respeitadas as legislações vigentes.

*Daremos continuidade ao processo de criação do Conselho de Líderes Espirituais Indígenas, de forma a aperfeiçoar o que já temos feito. O conselho terá como uma de suas premissas ser uma instância orientadora e mediadora com o mundo não indígena, capaz de agregar e difundir a mensagem de paz e de proteção da vida, com um compromisso de garantir o respeito aos conhecimentos, ciências e medicinas indígenas.

Identificamos a necessidade de elaboração de contratos claros e de maior atenção voltada a atividades comerciais que envolvam as medicinas tradicionais indígenas.

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*Identificamos a necessidade de elaboração de contratos claros e de maior atenção voltada a atividades comerciais que envolvam as medicinas tradicionais indígenas.

*Notamos a importância de incorporar novas tecnologias sociais de gestão de projetos para qualificar o efetivo uso de recursos e financiamento de processos nas comunidades.

*Salientamos a importância de se ter espaços sagrados específicos para realização de cerimônias, onde seja feita previamente a limpeza espiritual, pois assim fortalecemos as práticas culturais e espirituais em harmonia com os seres do lugar, tanto nas aldeias quanto em comunidades indígenas urbanas.

Vamos preparar as crianças para defender os territórios e incentivar a aprendizagem das línguas maternas e demais elementos culturais de nossos povos, para pensarem de forma crítica e criativa a sua conexão com a ancestralidade.

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*Nos inspiramos com experiências de criação de espaços para a formação integral de jovens que possam atuar em processos culturais, econômicos, políticos e espirituais, bem como conhecer as medicinas. Vamos preparar as crianças para defender os territórios e incentivar a aprendizagem das línguas maternas e demais elementos culturais de nossos povos, para pensarem de forma crítica e criativa a sua conexão com a ancestralidade.

*Consideramos que a proteção de plantas e animais está vinculada à soberania alimentar de nossos povos, sempre de forma integrada à escola e demais ações comunitárias, conforme as reflexões de cada comunidade.

Buscaremos nos aproximar de um diálogo entre as medicinas tradicionais indígenas e a medicina não indígena, para que sejam reconhecidas e valorizadas, com a indicação de integrá-las em sistemas públicos de saúde física, emocional e mental.

INSTITUTO YORENKA TASORENTSI

*Buscaremos nos aproximar de um diálogo entre as medicinas tradicionais indígenas e a medicina não indígena, para que sejam reconhecidas e valorizadas, com a indicação de integrá-las em sistemas públicos de saúde física, emocional e mental.

*Buscaremos meios de proteger as riquezas abundantes de nossos territórios, unindo-nos como povos irmãos com segurança e autonomia, nos aliando a parceiros não indígenas que trabalham em diálogo verdadeiro com os nossos pensamentos de viver bem. Vemos essa união como um caminho de superação dos crimes contra a memória e as culturas de nossos povos.

*Estamos atentos ao contexto das fronteiras entre diferentes países que envolvem nossos territórios na Amazônia continental, aos desafios colocados para nossa articulação enquanto povos irmãos, pois para nós os nossos territórios não possuem fronteiras. As florestas tropicais são sistemas de vida que se estendem também a outros territórios, e o compromisso com o seu equilíbrio envolve visibilizar nossos conhecimentos originários. Enfrentaremos as situações locais de ameaças diversas para proteger a terra e a floresta e precisamos de apoio para o acesso às tecnologias necessárias para registrar e monitorar invasões nos territórios.

*Reforçamos a necessidade de tecer alianças entre os povos nessa faixa de fronteira e da realização de etnozoneamento de todas as terras indígenas.

*Afirmamos que a separação do conhecimento em áreas e a diferenciação entre moléculas, substâncias, plantas e produtos não corresponde ao pensamento indígena sobre o espírito e a vida dos seres que nos curam. Alertamos sobre os perigos e graves consequências da morte de nossos territórios, do mal uso de nossas medicinas e da apropriação cultural. Ressaltamos a importância da consulta prévia e informada, da violência do extrativismo de nossos conhecimentos, da biopirataria e nos posicionamos contrários às ameaças de exploração e exclusão de nossos povos.

*Alertamos que as ameaças à vida e aos territórios não provêm somente de madeireiras, garimpeiros e do narcotráfico, pois também podem estar camufladas em narrativas bonitas de organizações não-governamentais, empresas e missionários. Portanto, nossos líderes e sábios devem ser protegidos.

Convocamos técnicos e acadêmicos indígenas e não indígenas a combater a desinformação, a falta de consciência nas instituições, a apropriação cultural e uso inadequado de nossas medicinas.

INSTITUTO YORENKA TASORENTSI

*Convocamos técnicos e acadêmicos indígenas e não indígenas a combater a desinformação, a falta de consciência nas instituições, a apropriação cultural e uso inadequado de nossas medicinas. Os convocamos para serem pontes para a revisão de antigos paradigmas, criação de novos modelos, assessoria jurídica, desenvolvimento de instrumentos, de políticas públicas e interlocução institucional, a partir de nossas demandas, com respeito às identidades culturais, às ciências indígenas e respeito de seus métodos de pesquisa e ensino.

*Enfrentaremos a criminalização da ayahuasca em seu uso por líderes espirituais indígenas fora de seus territórios de origem, pois somos todos uma família.

Enfrentaremos a criminalização da ayahuasca em seu uso por líderes espirituais indígenas fora de seus territórios de origem, pois somos todos uma família.

INSTITUTO YORENKA TASORENTSI

*Exigimos a liberação imediata de pessoas presas por transportar e usar a ayahuasca em países como o México e a Espanha, em casos em que nossos líderes estão sendo denunciados como criminosos e traficantes de substâncias ilícitas. Nos posicionamos a favor da autonomia dos povos originários para lidar com suas medicinas tradicionais.

*Não aceitamos registros de patente da ayahuasca e outras medicinas indígenas, assim como desautorizamos qualquer apropriação para fins de desenvolvimento de produtos comerciais que desconsiderem nossos direitos relacionados ao conhecimento tradicional associado. Nos comprometemos a lutar para quebrar essas patentes ilegítimas.

Observação: O termo Ayahuasca não substitui as terminologias apresentadas por cada povo participante, tais como Kamarãpi, Uni, Huni, Dispãnī hew, Tsĩbu, Yage, Gaapi, Caapi, Hayakwaska, entre outras. No entanto, desde a primeira Conferência foi acordada a utilização deste termo de forma genérica, compreendendo todas as demais nomenclaturas.

Instituto Yorenka Tasorentsi, Marechal Thaumaturgo-Acre, Brasil, setembro de 2022.

Este artigo foi publicado originalmente em: https://ayahuascaconferenciaindigena.org/.

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