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Mestre Irineu: Um homem negro brasileiro que mudou a história da ayahuasca

21 de Diciembre del 2020
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Você provavelmente conhece a ayahuasca. Você provavelmente ama a Amazônia. Você provavelmente apoia o movimento Black Lives Matter (assim espero!). O que você talvez não saiba é que um homem negro, que viveu na Amazônia, fez a diferença na história da ayahuasca. Trata-se de Raimundo Irineu Serra, fundador do Santo Daime, a mais antiga religião ayahuasqueira brasileira. Apresentar um pouquinho de sua história é meu objetivo nas linhas que seguem.

O jovem neto de pessoas escravizadas vai para a Amazônia

Raimundo Irineu Serra nasceu em São Vicente Férrer, uma pequena cidade do Maranhão, o Estado mais pobre do Brasil, em 1890, apenas dois anos após a abolição da escravidão.

Raimundo Irineu Serra nasceu em São Vicente Férrer, uma pequena cidade do Maranhão, o Estado mais pobre do Brasil, em 1890, apenas dois anos após a abolição da escravidão (Moreira e MacRae, 2011). Neto de pessoas negras escravizadas, ele jamais teve a chance de frequentar a escola, e viveu uma infância muito humilde.

Nesta situação de pobreza e desigualdade, acredite em mim, nenhum de seus amigos de infância poderia imaginar que Irineu Serra conseguiria superar as dificuldades e o racismo estrutural impostos sobre sua condição existencial. Mas ele conseguiu.

Até chegar lá, entretanto, muitos foram os desafios, os sofrimentos e as lutas vividas por ele. Boa parte dos quais, aliás, são análogos aos sofrimentos vividos por tantos outros homens e mulheres negras em território latino americano por conta de sua condição existencial.

Em busca de melhores condições de vida, Irineu saiu do Maranhão e cruzou o país em direção à Amazônia, para o território que hoje conhecemos como Acre.  Chegou lá em 1912, motivado pela promessa do governo de que os trabalhadores da borracha teriam uma vida próspera na floresta.

Essa promessa era uma mentira, claro. O sistema produtivo do seringal era baseado na exploração impiedosa dos trabalhadores, que usualmente viviam em condições paupérrimas. Para piorar, devido à biopirataria de sementes de seringueira, o Brasil perdeu o monopólio da produção de borracha para o sistema da plantation das colônias britânicas na Malásia, o que ocasionou um colapso socioeconômico na região (Moreira e MacRae, 2011).

Com isso, milhares de imigrantes, que assim como Irineu Serra sonhavam em ter uma vida melhor na Amazônia, ficaram totalmente abandonados. E foi nesse contexto que Irineu, quase sem esperanças, procurou a ayahuasca.

Junte-se a nós na Conferência Plantas Sagradas nas Américas II.

De uma mulher para um homem negro: a iniciação com a ayahuasca

Segundo relatos de seus seguidores, Mestre Irineu foi iniciado nos mistérios da ayahuasca provavelmente no território do Peru, através de xamãs indígenas (Moreira e MacRae, 2011). Ao ingerir a enigmática poção, Irineu passou então a ter revelações espirituais que transformaram sua vida e sua compreensão da bebida ao longo do tempo.

De acordo com a mitologia daimista, em uma noite clara e bonita, Irineu tomou ayahuasca, e ao olhar para a lua avistou uma senhora formosa e bela. Essa senhora lhe perguntou: “Quem você acha que eu sou?”.  Admirado, Irineu fitou-a e respondeu: “A Senhora, para mim, é uma Deusa Universal!” (Moreira e MacRae, 2011).

Esta entidade feminina foi depois identificada como a Rainha da Floresta, e compreendida também como uma manifestação da Virgem da Conceição.

Mestre Irineu com seu cajado.
Fonte: Centro de Memória ICEFLU.

Ela então orientou seu discípulo a passar por uma série de dietas e provações, após as quais ela lhe concedeu o direito a fazer um pedido. O pedido do jovem Raimundo teria sido então o de se tornar um grande curador para ajudar outras pessoas, e que ela colocasse tudo o que pudesse curar dentro daquela bebida.

Esse pedido lhe foi então concedido. A partir daí, Irineu Serra começa a se tornar Mestre Irineu.

Santo Daime: um mosaico cultural

A partir desse encontro entre uma divindade feminina, um homem negro e uma bebida mágica ancestral de origem indígena, a ayahuasca é rebatizada com o nome de Daime.

Mestre Irineu e seus companheiros.
Fonte: Centro de Memória ICEFLU.

A partir desse encontro entre uma divindade feminina, um homem negro e uma bebida mágica ancestral de origem indígena, a ayahuasca é rebatizada com o nome de Daime. Que é um rogativo, originado do verbo “dar”: “Dai-me força! Dai-me amor!”, pedem os daimistas em suas cerimônias. Para conseguir navegar nos ramos das misteriosas dimensões da ayahuasca, é necessário adotar uma posição de humildade perante seu poder, e pedir: Daime!

Mestre Irineu passa então a combinar o consumo ritual da ayahuasca com elementos de outras tradições espiritualistas, incluindo o catolicismo popular brasileiro, a espiritualidade indígena, o esoterismo europeu e as religiosidades afro-brasileiras, dando origem, nos anos de 1930, a uma filosofia original, conhecida hoje como Santo Daime. 

Desde seu início, portanto, o Santo Daime teve como características o sincretismo e o intercâmbio junto a outras práticas, se constituindo como um mosaico cultural. Isso permitiu ao grupo se adaptar ao contexto complexo e beligerante da época, e ser moldado a diferentes concepções de mundo.

Essa chave de leitura, que mostra Mestre Irineu como um xamã que construiu pontes entre mundos distintos, nos dá uma dica para compreender a presença de elementos cristãos no Daime. Algumas pessoas, especialmente o público branco de classe média do hemisfério Norte, têm resistência a essa interface com o cristianismo.

Dizem que Mestre Irineu cristianizou a ayahuasca. O que eles não dizem é que ele também “caboclizou” o cristianismo, ressignificando-o para o povo pobre do seringal (Rodrigues, 2019). Um cristianismo caboclo, que resgata a auto-estima dos trabalhadores da borracha. Um cristianismo descolonial.

Tome por base o próprio mito de origem do grupo. É a Virgem da Conceição que revela a Irineu Serra sua missão espiritual. Mas ela também é a Rainha da Floresta. Também é uma “deusa universal”. Assim como a ayahuasca é uma mistura simbiótica de duas plantas que produzem uma bebida única, a filosofia de Mestre Irineu é uma mistura antropofágica de diversas culturas que produz uma identidade autêntica.

Uma experiência musical

Assim como muitos outros daimistas, eu gosto de chamar o Santo Daime de uma “religião musical”. Isso porque, após estabelecer contato com a Rainha da Floresta, esta teria dito a Irineu que gostaria de ser louvada de forma alegre, através de cantos.

Irineu respondeu que não sabia cantar, ao que ela lhe ordenou que abrisse a boca, pois ela iria lhe ensinar. Naquele momento, Irineu teria sido inspirado a cantar “Lua Branca”, o primeiro hino do Santo Daime.

Desde então os textos sagrados dessa religião estão inscritos em hinos musicados, “recebidos” por daimistas do mundo inteiro. Um grupo de 132 desses hinos compõe o hinário de Mestre Irineu, conhecido como O Cruzeiro, base fundamental da prática religiosa do grupo. Organizados cronologicamente, essas canções são consideradas pelos daimistas como mensagens divinas, espiritualmente inspiradas.

É virtualmente impossível compreender o Santo Daime sem olhar para seu aspecto musical. A música não só faz parte, como cria o universo encantado da “doutrina”. As paisagens sonoras das cerimônias são capazes de levar e trazer as pessoas de suas jornadas visionárias, e são uma ilustração potente da simbiose entre psicodélicos, cultura, espiritualidade e corpo (Assis, Labate e Cavnar, 2017).

Nas cerimônias do Santo Daime, a música é tão importante que as pessoas não só escutam hinos, mas também cantam e bailam por até 12h (!), dependendo da cerimônia (Sim, o daimista é um dançarino por natureza!). Um trabalho do Santo Daime é, essencialmente, uma experiência musical.

Da prisão até o Japão

Sendo um homem negro que ousava cultivar uma espiritualidade contra hegemônica, Mestre Irineu sofreu perseguições e carregou um forte estigma social por um longo tempo. Em seus primeiros tempos na Amazônia, foi alvo das ações que a polícia realizava contra a “feitiçaria”. Chegou inclusive a ser baleado por policiais.

Sendo um homem negro que ousava cultivar uma espiritualidade contra hegemônica, Mestre Irineu sofreu perseguições e carregou um forte estigma social por um longo tempo.

Em seus primeiros tempos na Amazônia, foi alvo das ações que a polícia realizava contra a “feitiçaria”. Chegou inclusive a ser baleado por policiais. Isso motivou sua mudança do interior para a capital do estado, Rio Branco. Mas não pense que as coisas melhoraram a partir daí.

Irineu Serra, que além de tudo também se destacava em meio às pessoas pela sua altura – tinha cerca de 2 metros – foi acusado de curandeirismo e charlatanismo no novo local, e chegou até mesmo a ir para a prisão em 1942, após cerco a sua casa feito por cerca de quarenta oficiais (Moreira e MacRae, 2011).  Tal fato motivou o Mestre a se mudar novamente, desta vez em definitivo.

Tanta perseguição levou Irineu a desenvolver habilidades diplomáticas especiais, que o tornaram capaz de transitar entre diferentes círculos sociais. Estabeleceu alianças com políticos importantes, ao mesmo tempo em que resgatava pessoas que viviam em condições análogas à escravidão nos seringais. 

Essa diplomacia cosmopolítica de Mestre Irineu, que considerava também as plantas, os animais e a natureza, foi capaz de consolidar seu grupo religioso, que cresceu até contar algumas centenas de pessoas, e tornar Irineu um cidadão regionalmente respeitado.

Essa consolidação foi a base para catapultar, décadas depois, a diáspora nacional e internacional do Santo Daime, empreendida especialmente por dois de seus seguidores, Padrinho Sebastião Mota de Melo e seu filho, Padrinho Alfredo Gregório de Melo.

Mestre Irineu com os jovens Alfredo e Valdete, filhos de Sebastião Mota de Melo e futuras lideranças daimistas.
Fonte: Centro de Memória ICEFLU.

Hoje o movimento fundado por Irineu Serra está presente em pelo menos 43 países de todos os continentes habitados. De Montevideu até Berlim, passando por Nova York e Jerusalém e chegando até o Japão. É um dos movimentos religiosos brasileiros mais internacionais. E tem cumprido um papel importante na regulamentação e legalização da ayahuasca no mundo todo.

Hoje o movimento fundado por Irineu Serra está presente em pelo menos 43 países de todos os continentes habitados. De Montevideu até Berlim, passando por Nova York e Jerusalém e chegando até o Japão. É um dos movimentos religiosos brasileiros mais internacionais. E tem cumprido um papel importante na regulamentação e legalização da ayahuasca no mundo todo (Assis e Labate, 2014).

Isso não quer dizer que as coisas se tornaram fáceis para os daimistas. Ao contrário. Perseguições continuam. Agora globalmente. Nas últimas 3 décadas, daimistas foram presos e dezenas de litros de Daime foram apreendidos em diferentes lugares do mundo. Mas os seguidores de Irineu Serra são resilientes. Eles tem a quem puxar!

Mestre Irineu em frente à sua casa em Rio Branco.
Fonte: Centro de Memória ICEFLU

A antropomorfização da ayahuasca: Irineu torna-se Juramidam

Em 06 de julho de 1971, ocorre o falecimento do Mestre Raimundo Irineu Serra. Seus seguidores acreditam que seu falecimento simboliza o cumprimento de sua missão na Terra. A partir daí sua doutrina está pronta. Ele passa então a ser reconhecido pelos daimistas como Juramidam, seu nome espiritual. “Mestre Império Juramidam”.

A ayahuasca, entendida pelos daimistas também como um “ser divino, transformado em líquido” (Silva, n.d.) passa a ser sinônimo do próprio Mestre Irineu. A bebida se transforma em gente. E Irineu Serra se transforma em planta. Daime e Irineu se fundem em um só. Como ele disse, certa vez: “Eu sou o Daime e o Daime sou eu”.

Hoje, o túmulo de Mestre Irineu é um local de peregrinação internacional, e um importante ponto turístico da cidade de Rio Branco, e a fórmula da ayahuasca desenvolvida por Irineu se consagrou não só no Santo Daime mas em diversos outros grupos, como um método de preparação seguro e uma ayahuasca muito especial.

Sua comunidade original continua funcionando no mesmo lugar, liderada pela viúva de Irineu Serra, Madrinha Peregrina Gomes Serra, que atualmente tem 83 anos e continua participando ativamente da vida religiosa.

Casamento de Mestre Irineu e Peregrina Gomes.
Fonte: Centro de Memória ICEFLU.

Santo Daime: contracultura descolonial brasileira

Alguns saberes da ayahuasca vivem um processo de embranquecimento e seus personagens são apagados da história. Resgatar figuras históricas do Sul global, lugar nativo da bebida, é uma forma importante de contrabalançar essa situação.

Hoje a ayahuasca está se tornando mainstream. E, juntamente com a valorização de saberes tradicionais, esse movimento também mercantiliza a bebida e desencanta suas práticas. Alguns saberes da ayahuasca vivem um processo de embranquecimento e seus personagens são apagados da história. Resgatar figuras históricas do Sul global, lugar nativo da bebida, é uma forma importante de contrabalançar essa situação.

Mestre Irineu é um personagem fascinante da história da ayahuasca. Sua vida nos ensina que a discussão sobre esta “bebida que tem poder inacreditável” (O Cruzeiro, n.d.) não é somente sobre psicodélicos. É também sobre diversidade. Meio ambiente. Cultura.  Sobre superação de preconceitos e estigmas sociais. Sobre uma conduta de vida descolonial e contra hegemônica.

A trajetória de Raimundo Irineu Serra nos lembra mais uma vez que vidas negras importam em todos os espaços, incluindo aí onde quer que a ayahuasca seja encontrada e consagrada.

Que esse singelo testemunho possa contribuir para manter viva a memória desse grande homem negro brasileiro. Conforme ele mesmo nos diz:

Mestre Raimundo Irineu Serra.
Fonte: Centro de Memória ICEFLU.

“Aqui findei

Faço a minha narração

Para sempre se lembrarem

Do velho Juramidam” (Serra, n.d.)

Referências:

Daime Sorrindo (n.d.). Ser Divino. Acesso em dezembro de 2020: https://nossairmandade.com/hymn.php?hid=1540

Assis, Glauber e Labate, Beatriz. (2014). Dos igarapés da Amazônia para o outro lado do Atlântico: A expansão e internacionalização do Santo Daime no contexto religioso global. Religião e sociedade 34(2): 11-35. DOI: 10.1590/S1984-04382014000200002

Assis, Glauber, Labate, Beatriz e Cavnar, Clancy. (2017). Música, tradução e linguagem na diáspora do Santo Daime. Revista de Antropologia, v. 60 n. 01. São Paulo: USP. DOI: https://doi.org/10.11606/2179-0892.ra.2017.132102

Moreira, Paulo & MacRae, Edward. (2011). Eu venho de longe: mestre Irineu e seus companheiros. Salvador: Edufba. https://doi.org/10.7476/9788523211905

O Cruzeiro (n.d.). Estou Aqui. Acesso em dezembro de 2020: https://www.nossairmandade.com/hymn/301/EstouAqui

O Cruzeiro (n.d). Eu tomo Esta Bebida. Acesso em dezembro de 2020: https://www.nossairmandade.com/hymn/92/EuTomoEstaBebida

Rodrigues, Jacqueline A. (2019). “Eu não me chamo Daime, eu sou é um ser divino“. Apontamentos antropológicos sobre o Santo Daime a partir da experiência de seus adeptos. Dissertação de Mestrado em Antropologia. Belo Horizonte: UFMG.

Ilustração da artista Clancy Cavnar

Arte de Clancy Cavnar

Este artigo foi publicado originalmente, em inglês, no portal do Chacruna Institute.

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