No começo do ano passado, quando nós fomos todos surpreendidos pela necessidade de suspender tudo o que estávamos fazendo, seja na sala de aula, no trabalho, nos aeroportos, nas viagens na estrada….

De uma hora pra outra nós tivemos que parar isso e alguns de nós ficaram realmente embargados no seu cotidiano, passando muito aperto. Muita gente inclusive perdeu a vida ao longo desses meses que nos separam de fevereiro de 2020. Eu não preciso lembrar a todos o aperto que tem sido isto porque ele é um aperto coletivo. Ele nos obrigou a essa experiência de nos implicar com a realidade que está afetando outras vidas, outras pessoas, fora do nosso quadradinho. É claro que alguns de nós poderiam estar tendo uma vida bem folgada num escritório, numa universidade, ou mesmo numa fazenda, numa praia…quando de repente nós fomos assaltados por essa espécie de fim de mundo que nos afetou a todos.

Eu tinha publicado em 2018 um título ideias para adiar o fim do mundo que foi entendido por muitas pessoas como uma profecia acerca desse tempo que nós estamos agora experimentando, uma espécie de alerta global sobre a insustentável maneira de estarmos no mundo que configura isso que podemos chamar de modernidade. Não tem coisa mais velha que a modernidade….

Muitos de vocês sabem que a ideia de modernidade é uma ideia que está cada vez mais sendo posta em questão. E parece que a gente precisa chacoalhar essas epistemologias, digamos assim, essas acomodações da história e dos termos que nós fomos compartilhando até que se tornassem uma verdade, ou quase uma verdade, a ideia de que nós somos modernos e de que estamos nos atualizando em relação a nós mesmos.

Porque em  relação ao planeta que nós habitamos, em relação aos ecossistemas e à ecologia do nosso planeta, nós nunca estivemos tão atrasados. É como se o movimento que nós imaginamos prospectivo, como uma flecha, nos levando em algum lugar de atualização, correspondesse a um movimento na mesma intensidade de andar pra trás, de voltar pra caverna, pra caverna do Platão, onde a gente fica plasmado, vendo sombras do lado de fora, e morrendo de medo.

Com medo do amanhã. Esse amanhã que a gente prospecta. Que a gente imagina e que alguns de nós imaginam como um direito, um direito adquirido, pensando, para trazer para os termos cotidianos, que “o dia de amanhã já está no bolso”. É por isso que a gente se dirige uns aos outros ao final de uma jornada e diz: “aquele abraço”, “até amanhã”, “amanhã a gente se vê”. Culturalmente é claro e admissível que a gente faça isso. Mas de onde vem essa certeza de que amanhã a gente vai se encontrar?

A probabilidade de que amanhã a gente vai estar vivo é, digamos, metade da chance da gente estar não vivo. Agora que estamos vivendo essa experiência da pandemia onde a gente vê a foice cortando pra todos os lados…desaparece o seu avô, desaparece o seu tio, o seu irmão, o seu colega, o seu vizinho que jogava bola com você, o seu colega de sala de aula, o seu professor…

Você vai experimentando um apagamento de pessoas e referências que você tinha do mundo, mas você insiste em dar “até amanhã”; “amanhã a gente se vê”. A não ser pela esperança que isso significa (e é um alento ter esperança), o resto todo é só um bingo; a possibilidade da gente estar vivo amanhã. Mas não tem nada garantido. Eu refleti sobre isso enquanto estava aqui fazendo evitação do contágio. Eu perdi pessoas que eu conhecia. E eu perdi pessoas que eu amava.

Você vai experimentando um apagamento de pessoas e referências que você tinha do mundo, mas você insiste em dar “até amanhã”; “amanhã a gente se vê”. A não ser pela esperança que isso significa (e é um alento ter esperança), o resto todo é só um bingo; a possibilidade da gente estar vivo amanhã. Mas não tem nada garantido. Eu refleti sobre isso enquanto estava aqui fazendo evitação do contágio. Eu perdi pessoas que eu conhecia. E eu perdi pessoas que eu amava.

Representantes do povo Krenak. Foto: Acervo Plinio Ayrosa /USP

E isso tudo foi me descascando. Foi tirando algumas caracas que eu carregava em mim como certezas. A gente tem muitas certezas….e tem certezas de coisas demais. Algumas delas a gente adquiriu na nossa socialização, na nossa ida à escola, na nossa ida à igreja, na nossa integração a uma comunidade aonde um conjunto de valores vão sendo instituídos como verdade e a gente obviamente vai aderindo para fazer parte dessa comunidade.

A mais insustentável dessas informações é aquela de que tempo é dinheiro. Ora, a maioria de vocês, mesmo aqueles que só estão com 20 anos de idade, já escutaram até cansar a frase de que “tempo é dinheiro”. O menino está saindo correndo para pegar uma Kombi para ir para a escola ou para atravessar de canoa de um lado pro outro e alguém fala com ele: “anda logo você está atrasado”! E alguém acrescenta: “tempo é dinheiro; anda logo, você está perdendo tempo. Tempo é dinheiro”!

Com o evento da suspensão das nossas rotinas do cotidiano todo mundo parou por um instante e começou a olhar ao redor de si e observar como estava perdendo tempo. Afinal de contas, tempo é dinheiro. Suspenderam as atividades nas escolas, suspenderam as atividades do mundo do trabalho, nos escritórios, nas fábricas. Todos esses lugares que não podiam parar um minuto, parou tudo. Parou o trânsito, parou o aeroporto, e eu me lembrei daquela canção do Raul Seixas, “O dia em que a Terra parou”.

Ora, quem é da minha geração, eu estou 68 anos, escutava Raul Seixas cantando O dia que a Terra parou e observava que aquele era um texto datado, era um texto do pensamento hippie dos anos 60, 70, que queria botar em questão esse mundo acelerado do capitalismo que diz que tempo é dinheiro.

Imprimir sentido e valor ao tempo era também estabelecer uma métrica para medir o quanto era útil a vida de cada um de nós. Então um sujeito que funda uma cidade, que inventa um artefato, que atualiza uma coisa, que cria uma empresa, uma corporação, esse sujeito é medido, a importância da vida, da biografia desse cara é definido pelo tanto de coisa que ele fez enquanto ele utilizava esse tempo, o tempo dinheiro.

Ora, principalmente no ocidente, a tradução do valor da vida ficou mesmo estabelecida nesses termos. Uma pessoa comum, que não fundou cidade, que não inventou um artefato, que não criou um banco, uma corporação, é uma quase não pessoa. Não precisa ter biografia uma pessoa desse jeito. Ele “só” viveu.

Ele não fez a vida ser uma utilidade. Ele não transformou a vida numa coisa utilitária. Ele simplesmente experimentou a vida como fruição. A experiência da vida, aquela que o Manoel Bandeira reclama. O desejo de se tornar árvore, formiga, uma folha, essa experiência da fruição da vida. Não como uma utilidade, como alguma coisa útil, mas como um dom, uma transcendência, uma experiência de estar vivo que é para além da utilidade, mais do que esses minutos que a gente conta, o tempo que dizem que é dinheiro.

Então toda essa cultura foi nos impregnando a todos, no ocidente principalmente, mas também em outras regiões do mundo, porque afinal de contas a bolsa de Nova York e a bolsa de Tóquio falam a mesma língua. A língua do dinheiro. E tempo é dinheiro. Tanto lá em Tóquio como em nova York. E o mundo passou a se embalar com essa narrativa, ao ponto de um telejornal no Brasil, muito manjado, costumava abrir o jornal da manhã dizendo: “o mercado está nervoso”. Eles diziam isso no jornal da manhã e transformavam o dia das pessoas num inferno. Porque tinha gente com medo de perder o emprego, de perder o dinheiro que tinham botado em algum investimento, na bolsa, qualquer coisa, e tinha gente que achava que a vida política do país ia virar um caos, afinal de contas “o mercado está nervoso”.

Esse bordão, “o mercado está nervoso”, azucrinou a vida dos brasileiros até a véspera da pandemia. Desde fevereiro do ano passado eu não escuto ninguém que tenha a coragem de abrir o jornal da manhã dizendo que o mercado está nervoso. Ou o mercado comeu muito e foi dormir, comeu as nossas vidas, comeu as nossas expectativas de vida, avassalou o ecossistema terrestre, botando o planeta em febre, como dizem alguns especialistas…

A Terra está com uma temperatura tão elevada que o funcionamento dos diferentes ecossistemas terrestres estão dando sinais de que podem ficar inabitáveis pelos humanos. Algumas espécies estão sendo extintas exatamente pela aceleração do consumo e pela superexploração que nós temos feito a partir do modo de existir que essa humanidade moderna decidiu seguir, que quer expandir a capacidade de consumo ao ponto da gente devastar paisagens inteiras como cerrado, pantanal e mesmo a floresta amazônica para produzir commodities. Pra “produzir”; pra exportar. Aqui há 500 m de casa passa a estrada de ferro vitória-minas. Ela não cessa. Todo dia, toda hora a composição do trem passa levando minério pro porto.

Eu não tenho como esquecer disso porque eu escuto o trem passando. E ele vai levar os containers de minério para botar no navio e mandar pra fora daqui. Ora, vamos imaginar um sistema fechado de onde você tira o tempo inteiro e despacha para um outro sistema externo a esse e que não repõe o que sai daqui.

Agora mesmo estou escutando a buzina do trem da vale. Ele passa aqui toda hora. Como tem uma faixa muito limite com a reserva indígena, o sistema deles os obriga a darem um sinal de alerta quando eles entram no limite, e eles tocam esse buzinaço deles. Parece uma buzina de um navio ou algo assim. É como se fosse um relógio do fim do mundo avisando a gente que eles estão comendo as montanhas.

Aquelas montanhas que Carlos Drummond de Andrade, nos seus poemas, nos seus textos, na sua presença indelével em nossa memória, dizia eram só um retrato na parede agora, porque o seu território, sua Itabira, tinha sido comido. Ele falava do pico do Cauê, que tinha virado uma depressão, um buraco. Ele passou a vida dizendo isso e não mudou nossa ideia de progresso…não afetou a ideia de que tempo é dinheiro. Pelo contrário.

De lá pra cá, a incontrolável Fúria de transformar montanha em farelo, botar em cima dessas composições e despachar para o fim do mundo só acelerou. Foi embalado por essas experiências que eu imaginei aqueles textos, “Ideias para adiar o fim do mundo”, onde me ocorreu que eu deveria me alimentar da perspectiva dos povos originários, de um povo que viveu numa floresta do Rio Doce muito antes dessa coisa aqui, e que se lembra de uma outra experiência ecológica, se lembra de uma outra implicação do corpo com a paisagem, com o território, com o rio Uatu. Esse rio que passa aqui é o Uatu Miarerré. “Ô Uatu miarerré”!

Esse rio no qual a gente podia beber água, pegar peixes, nadar dentro dele, e que agora é uma vala com uma lama podre com a qual nós fomos presenteados na véspera do natal de 2015 pela Samarco Vale do Rio Doce e a BHP Billiton, impunes corporações criminosas que continuam, continuam a fazer o que sempre faziam: matando, roubando, saqueando.

Vista aérea de Brumadinho após o crime ambiental da Vale. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Me lembra a frase daquele carinha que entra no ônibus ou no trem com uma caixinha de pirulito na mão e diz: “bom dia pessoal, eu podia estar matando, roubando, estuprando mas eu estou aqui vendendo pirulito”. Essa frase deveria estar impressa nos produtos que a Vale, a BHP, a corporação estrangeira com sede em Londres associada à Vale, junto com sua operadora local, essa laranja que é a Samarco, uma verdadeira quadrilha internacional que come nossas montanhas, matam os nossos rios, e recebem prêmios de produção no final de cada período. Provavelmente dão bônus de milhões aos seus executivos ao final do ano.

Nós, pessoas comuns, ficamos como o poema de Mario Quintana: “Eles passarão! Nós, passarinho”…

Então vamos viver vidas de pássaros! Vamos ter experiências de pássaros! Vamos transcender! Vamos transcender a pássaros! Se ainda não conseguimos ser árvores, vamos pelo menos expandir a nossa subjetividade e nos imaginar pássaros. Porque as montanhas, os rios, as florestas, elas estão sendo apropriadas de uma maneira tão flagrante, tão descarada, à luz do dia!

Então vamos viver vidas de pássaros! Vamos ter experiências de pássaros! Vamos transcender! Vamos transcender a pássaros! Se ainda não conseguimos ser árvores, vamos pelo menos expandir a nossa subjetividade e nos imaginar pássaros. Porque as montanhas, os rios, as florestas, elas estão sendo apropriadas de uma maneira tão flagrante, tão descarada, à luz do dia!

E na pandemia, esse período estranhíssimo no qual estamos todos obrigados a conviver em meio ao incômodo, algumas pessoas não suportam e saem correndo caçando um carnaval, uma rave, uma festa escondida onde podem juntar duas mil pessoas, três quinhentas, nessa necessidade de se compartilhar um espaço onde estão vivos, implicados uns com os outros querendo fazer uma farra nem que depois disso parem todos no corredor de um hospital esperando um leito.

É o que está acontecendo em muitas regiões em nosso país. Desequipados de um ponto de vista material para serem modernos, mas achando que são, terminam como gado no corredor dos hospitais. Ou nas calçadas mesmo. Esperando uma maca. Esperando um leito.

Esperando.

Mas, do ponto de vista da consciência social, da compreensão de que nós vivemos uma realidade cortante e que cada pessoa deveria ter consciência de sua responsabilidade e interagir nesse contexto vasto que é o de um país, de uma nação, de um povo, é quase ficção você dizer que o Brasil é uma nação.

Nós chegamos a uma condição de uma fragmentação, de irritação das relações entre diferentes grupos – e isso se reflete muito nas tais redes sociais, onde as pessoas se ajuntam em algumas bolhas, falam coisas que agradam a cada um, e em volta há milhões de outras bolhas produzindo outras narrativas, a maioria delas conflitantes umas com as outras.

Desde essa narrativa que diz que você não precisa tomar vacina. Aliás, “se você tomar vacina é ruim, é perigoso”. Então toda essa produção de desinformação, essa espécie de cizânia implantada vastamente no meio dessa sociedade, ela corroeu, ela comeu os vínculos que nos constituíam como possibilidade de um povo, de pensar um povo, à semelhança do que Darcy Ribeiro a vida inteira insistia. De que nós somos um povo do futuro. Uma ideia de que nós seríamos a civilização dos trópicos, uma ideia de Nova Roma, todo esse sonho da geração de gente como Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro e alguns outros que imaginavam que a gente era um projeto em realização de povo. Hoje eles devem estar muito frustrados. Porque eles estão vendo em que grande blefe está dando essa tentativa de nos constituir como um país, como uma nação.

Nós estamos tão fragmentados que a gente não consegue ter nem liderança política capaz de convocar uma conversa pública e reunir alguns milhares de pessoas sem um matar o outro. Nós conseguimos chegar a esse grau de esgarçamento e de erosão dos vínculos entre entre comunidades e sociedades no nosso país que a gente , com tristeza, tem que admitir que nós não somos mesmo um povo brasileiro.

Nós estamos tão fragmentados que a gente não consegue ter nem liderança política capaz de convocar uma conversa pública e reunir alguns milhares de pessoas sem um matar o outro. Nós conseguimos chegar a esse grau de esgarçamento e de erosão dos vínculos entre entre comunidades e sociedades no nosso país que a gente , com tristeza, tem que admitir que nós não somos mesmo um povo brasileiro.

Essas observações me animaram a botar em questão se nós somos mesmo, para além da ideia de um país, uma nação, se nós somos mesmo uma humanidade.

Essa ideia que transborda das fronteiras dos países, das nações, e constitui esse ideal de humanidade que nós imaginamos e que se congrega numa grande constelação de povos que a ONU, a OMS, a OMC, a Unesco, essas superestruturas, sobre as quais nós falamos como se elas existissem de fato, e que seriam uma garantia de que nós somos uma humanidade. Afinal de contas, se existem essas estruturas grandiosas como Banco Mundial, a Unesco, a ONU, decerto que elas refletem algum desejo nosso. Alguma disposição comum de nos constituirmos para além das fronteiras do Brasil, da Bolívia, do Peru, da Argentina, ou de algum país da África, como a Nigéria, a África do Sul, Zâmbia. E que nos traz essa ideia de que nós somos, para além das muralhas desses castelos, desses fossos que nos separam, que nós somos uma humanidade.

A tentativa do século XIX, do século XX, de nos aportar nessa humanidade, está dando nisso gente. Está dando nessa experiência apavorante da desigualdade e da indiferença. Porque os países ricos da Europa estão interessados em resolver os seus próprios problemas. A disputa que se estabeleceu nos últimos meses em quem pode ter a vacina na quantidade necessária par imunizar a sua população nacional é a cara dessa tal de humanidade, que eu ponho em questão quando sugiro que ela é uma projeção de uma superestrutura que precisa dessa coesão para manter o mundo funcionando da maneira que funciona: consumindo commodities, colonizando, explorando regiões ainda abundantes de recursos naturais e transferindo isso para os grandes centros de poder político e econômico do planeta.

O resto? O resto é só uma narrativa que insiste em nos manter indiferentes à miséria e à destruição ecológica que muitas pessoas vivem no mundo inteiro. Indiferentes àquela parte da sub-humanidade, que não entra nos relatórios bacanas das corporações e nem aparecem nos discursos cheios de promessas das grandes figuras públicas do mundo. Os campos de refugiados, os ferrados do planeta, os sub-humanos, eles só aparecem nas manchetes de tragédia. E o aquecimento global veio para ficar.

Enquanto a gente não diminuir a velocidade desses trens que passam arrancando montanhas a temperatura do planeta só vai subir. Enquanto a gente não parar de aplaudir o próximo modelo de carro novo que a Peugeot, a Renault, a Ford e não sei quem mais lança no mercado como se fosse uma nova vacina.

Enquanto a gente não parar de adorar esse mundo do fóssil, essa economia do fóssil, nós só vamos aquecer o planeta. Até o ponto em que, primeiro, a sub-humanidade vai ser tragada pela miséria, pelo contágio, pelo descontrole sanitário. E depois, os que sobreviverem a isso também (talvez seja essa tal de humanidade, essa que tem cartão digital).

Arte gráfica de André Vallias, em homenagem a Ailton Krenak.

Quem sabe nós não estejamos inaugurando uma experiência planetária em que nós podemos ter posto em questão a ideia de que tempo é dinheiro, mas que ainda vai continuar insistindo que a vida não é para todos. A vida é só para quem pode circunscrever os espaços e manter esses espaços diferenciados do resto, que é onde fica essa sub-humanidade que nós acabamos por constituir numa luta desigual com o colonialismo.

Com isso que alguns autores já chamam de necrocapitalismo, que seria uma fase tão avançada do sistema financeiro global em que ele já produziu uma diferença entre aquela nossa velha ideia do mundo do trabalho, onde os trabalhadores e tal, aquela ideia romântica dos trabalhadores, poderiam se organizar e reivindicar direitos. Isso ficou pra trás. Aliás não se esqueçam que a Ford fechou as fábricas dela no Brasil, as montadoras dela no Brasil. Pra aqueles que ainda acham que assim que a pandemia passar você pode comprar o próximo modelo de carro, preste atenção!

Estão produzindo um pandemônio, enquanto a gente vive uma experiência real que é a pandemia. Uma impossibilidade de expandir as nossas relações os nossos afetos, limitados ao contato com essa telinha virtual do computador. Muita gente, aliás, já se acomodou a isso. Mas deveriam ficar alertas. Porque isso é uma captura das nossas capacidades de nos afetar com a vida mesmo.

O mundo que você habitava antes da pandemia, ele está mudando de lugar. Se não mudando de qualidade, está mudando de lugar. E está cheio de gente se reunido para criar dano e desordem. Estão produzindo um pandemônio, enquanto a gente vive uma experiência real que é a pandemia. Uma impossibilidade de expandir as nossas relações os nossos afetos, limitados ao contato com essa telinha virtual do computador. Muita gente, aliás, já se acomodou a isso. Mas deveriam ficar alertas. Porque isso é uma captura das nossas capacidades de nos afetar com a vida mesmo.

Por mais que eu me comova num encontro que fazemos nesse sistema virtual, ele não deixa de ser um simulacro. Quando estamos em uma reunião do Zoom, não estamos tendo uma reunião. Nós podemos projetar que estamos tendo uma reunião. Mas nós vamos repetir aquele gesto de uma mãe que de manhã pegou o celular e mostrou pra filhinha e abriu a foto da vovozinha no celular, e a filhinha beijou o celular e a mãe disse: “beija a vovó, beija a vovó”! E ela beijou o celular.

Ora, tem coisa mais distópica do que uma criança beijar uma tela de um aparelho desse como se ela estivesse beijando sua avó, sua vovozinha?

Se a gente continuar desse jeito nós não vamos ser muito diferentes desses filmes de ficção em que uma babá robô cuida das crianças e as pessoas se comunicam através de telas e mandam um beijo para os filhos , pra mãe, pra vó.

Nós temos que ser capazes de nos indignar com isso, e reinvindicar o lugar de seres vivos, reivindicar o direito de estar vivo. E fazer a experiência mesmo, de estar radicalmente vivo! É essa a palestra, a fala, a mensagem que eu queria por à disposição de meus possíveis leitores, dos meus convidados.

Texto extraído e parcialmente adaptado de palestra realizada no canal Janelas da Terra, que pode ser acessada na íntegra aqui.

Arte de Karina Alvarez.

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