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Podem os psicodélicos “curar” as pessoas homossexuais?

15 de Septiembre del 2021
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Clancy Cavnar, Ph.D., tiene un doctorado en psicología clínica. Es cofundadora y miembro de la junta directiva del Instituto Chacruna.

Clancy Cavnar, Ph.D., tem doutorado em psicologia clínica. É cofundadora e membro do conselho de diretores do Instituto Chacruna.

Um dos usos pioneiros de psicodélicos por psicólogos foi uma tentativa de “tratar” pessoas homossexuais para que mudassem sua orientação sexual.

Muitas pessoas expressam com frequência a opinião de que os psicodélicos vão abrir as mentes dos seres humanos, tornando-os menos propensos a julgamentos e mais abertos a compartilhar o amor e a serem inclusivos. Na prática, entretanto, o que sabemos é que um dos usos pioneiros de psicodélicos por psicólogos foi uma tentativa de “tratar” pessoas homossexuais para que mudassem sua orientação sexual. A assim chamada “Terapia de conversão” é um “tratamento” eu procura mudar a orientação sexual de homossexuais. Essa prática se tornou mais controversa após a remoção da homossexualidade, em 1973, do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM, na sigla em inglês), tido até hoje como a “Bíblia” da psiquiatria mundial. Se a homossexualidade não era mais uma “doença”, qual justificativa poderia haver para tratá-la?

Em 2016, pela primeira vez o Partido Republicano dos EUA endossou a terapia de conversão em sua plataforma política sob a ideia de “direito dos pais de determinar tratamento médico e terapia para seus filhos menores de idade”. Terapia de conversão, ou “terapia reparativa”, é ilegal em apenas 16 países dos EUA, e foi promovida pelo ex-vice-presidente Pence, que afirmou que “recursos financeiros devem ser direcionados para instituições que promovem assistência para as pessoas que querem mudar seu comportamento sexual”2, embora hoje ele negue esse apoio3.

Freud acreditava que todos os seres humanos nasciam bissexuais, e que suas inclinações posteriores eram o resultado de experiências de vida e condicionamento realizado pelos pais. “A homossexualidade certamente não é uma vantagem, mas não é nada sobre o qual se deve ter vergonha, não é um vício, não é degradação, e não pode ser classificada como uma doença…é uma grande injustiça perseguir a homossexualidade como um crime, e também uma crueldade”4. O famoso Albert Kinsey também tratou a homossexualidade como algo normal ao criar a “Escala Kinsey” e expressar a orientação sexual como um continuum. Nos anos 1950, entretanto, com o advento do behaviorismo, a ideia de que a homossexualidade era um comportamento aprendido foi introduzida, e com isso o tratamento para “curá-la” com intervenções behavioristas, incluindo terapia de aversão, o pareamento de algo doloroso como se fosse algo desejável de ser extinto.

A opinião da Associação Americana de Psicologia (APA, em inglês) é de que não há uma maneira segura ou efetiva de mudar a orientação sexual de uma pessoa, e que terapias que prometem fazer isso reforçam visões negativas sobre homossexualidade e podem ser prejudiciais ao cliente.5 Os fundamentos éticos para tratar indivíduos que possuem características socialmente indesejáveis com compostos psicodélicos potentes para livrá-los dessas características é algo altamente suspeito. Esse artigo é um lembrete de que todas as medicinas podem ser um veneno quando usadas por mãos erradas.

Literatura dis abis 1950 reflete o interesse de alguns em “curar” homossexualdiade. Créditos ONE National Gay & Lesbian Archives at USC Libraries.
Literatura dis abis 1950 reflete o interesse de alguns em “curar” homossexualdiade. Créditos ONE National Gay & Lesbian Archives at USC Libraries.

Minorias sexuais e tratamento com psicodélicos

Um estudo realizado por Alpert6 foi um dos primeiros relatos da literatura sobre a experiência de minorias sexuais com psicodélicos, sendo um exemplo de terapia de conversão (ver também Masters & Houston, 2000; Martin, 1962; Stafford & Golightly, 1967). Alpert administrou 200 mg de LSD-25 para um homem voluntário que se identificava como bissexual e estava insatisfeito com sua atração por homens. Durante sua viagem de quinze horas, foram mostradas a esse indivíduo imagens de mulheres, com o objetivo de encorajá-lo a desenvolver sentimentos em relação a elas. Em sessões subsequentes de LSD, uma conhecida desse indivíduo esteve presente e ele teve relações sexuais com ela. Um ano depois do tratamento, Alpert reportou que o referido homem estava vivendo com uma mulher, mas havia tido dois encontros homossexuais nesse período, descritos pelo indivíduo como testes aplicados a si mesmo para ver se as mudanças que ele havia vivenciado por conta do tratamento eram de fato “reais”. Alpert explicou que o uso do LSD permitiu ao sujeito tivesse acesso a uma visão mais ampla sobre o arquétipo “mulher” e dessa forma pudesse estabelecer conexões com desejos primais no interior desse arquétipo, as quais ele poderia então generalizar para todas as mulheres.

Stanislav Grof tratou clientes homossexuais com LSD. Ele concluiu que a aversão de homens gays a relações sexuais com mulheres estava relacionada à imagens de “vaginas dentadas” e fantasias de castração que foram acessadas durante o transe em sessões de LSD.

Stanislav Grof7 tratou clientes homossexuais com LSD. Ele concluiu que a aversão de homens gays a relações sexuais com mulheres estava relacionada à imagens de “vaginas dentadas” e fantasias de castração que foram acessadas durante o transe em sessões de LSD. Ele ligou a lesbiandade a um suposto desejo de se estar perto da mãe. Grof admite que ele tratava principalmente homossexuais que estavam insatisfeitos com sua orientação, e dizia que uma vivência sexual saudável direcionada a pessoas de mesma orientação sexual é possível e não necessariamente representa uma batalha psíquica interna. Grof também notou que sujeitos que participaram de tratamentos com LSD frequentemente viam sua sexualidade de forma arquetípica ou transcultural, tais como testemunhando ritos de fertilidade, iniciação, cerimônias e prostituição ritual.

Em “Variações da Experiência Psicodélica”, Masters e Houston8 relataram ter ministrado peyote a um grupo de voluntários gays. Partindo da premissa de que a homossexualidade seria uma orientação indesejada, Masters and Houston tentaram tratar seus clientes gays com doses repetidas de peyote. Eles reportaram que 12 dos 14 homens gays que participaram do experimento psicodélico tinham uma visão distorcida sobre o corpo, que os pesquisadores interpretaram ser devido à homossexualidade, embora tenham admitido que não poderiam prová-lo. Eles acharam então que, ao tomar psicodélicos, essa distorção era corrigida, o que eles atribuíram a uma tendência à “heterossexualização”. Eles também falam de forma estereotipada ao tratar os homens homossexuais como seres passivos sendo transformados pela terapia psicodélica, e atribuíram ao tratamento com peyote o engrossamento da voz, aumento de vigor, postura melhorada e maior masculinidade. Eles também sustentaram que os participantes demonstraram um desejo maior de se cuidarem e valorizarem sua aparência depois da experiência com o peyote. Em um caso analisado por Masters and Houston, os pesquisadores foram desencorajados por seus pesquisados pelos seus “consideráveis investimentos em sua homossexualidade” e se sentiram incapazes de capitalizar os “ganhos” realizados através da terapia (p.200). Eles então passaram a especular sobre o progresso que eles tiveram ao fazer indivíduos gays se tornaram heterossexuais.

Um estudo feito por Martin (1962) se debruçou sobre os efeitos do LSD em doze homens gays. Martin recomendava LSD como tratamento para a homossexualidade. Administrando várias doses baixas em um tratamento conhecido como terapia “psicolítica” (“separadora de mentes”) e encorajando um intenso processo de transferência em direção à mãe, Martin dizia que sete dos dozes homens alcançaram a almejada orientação sexual com apenas uma “leve recaída” em 3 dos 6 homens que fizeram um acompanhamento posterior (Sandison, 2001).

Stafford and Golightly (1967) reportaram a realização de terapia com LSD em homossexuais durante os anos 1960s. Eles achavam que questões homossexuais eram frequentemente resolvidas através da terapia psicodélica, e que a partir dela eles chegariam ou ao ponto de viverem tranquilamente com sua orientação sexual ou então ao ponto de decidirem que eram heterossexuais. Stafford and Golightly viam a homossexualidade como um resultado de traumas de infância ou “dependência mórbida” dos pais, ambas situações que poderiam ser tratadas, em sua visão, por “terapia de choque” com LSD. Stafford and Golightly recomendavam que o LSD forsse usado para tratar da “transexualismo”, “fetichismo” e sadomasoquismo da mesma forma que poderia ser utilizado para tratar a homossexualidade. Masters e Houston também advogavam o LSD, afirmando que o “tratamento de desordens sexuais – frigidez, impotência, homossexualidade e fetichismo – e algumas outras neuroses tem sido pode ser drasticamente melhorado ou ter eficácia maior quando o LSD é utilizado como auxiliar da psicoterapia” (Masters & Houston, p. 39). Essa visão reflete o pensamento recorrente durante o final dos anos de 1960, segundo o qual a homossexualidade era vista como uma doença mental, ligada à parafilias.9

Dispositivo usado para medir ereções em sessões de condicionamento aversivo. Imagem: ONE National Gay & Lesbian Archives da biblioteca USC.
Dispositivo usado para medir ereções em sessões de condicionamento aversivo. Imagem: ONE National Gay & Lesbian Archives da biblioteca USC.

Relatos pessoais

Ela e uma mulher transgênero que não havia passado por cirurgia de transição concordaram em tomar LSD e, no climax da experiência, elas concordaram em se olhar nuas, lado a lado, em frente a um espelho. “Nós iríamos nos olhar para ver se éramos monstros ou criaturas bonitas de Deus. Então, com as portas da percepção abertas, nós enxergamos a verdade: a verdade é que éramos bonitas”

Na literatura anterior ao atual Renascimento Psicodélico, são raros os relatos pessoais de indivíduos pertencentes à minorias sexuais que participaram de experiências terapêuticas enteogênicas. Narrativas em primeira pessoa sobre auto-administração de psicodélicos por gays e outras minorias sexuais podem nos ajudar a expandir a história. Alguns exemplos anteriores à Renascença Psicodélica incluem relatos de uma mulher transgênero que passou por cirurgia de transição10, descrevendo sua experiência experimentando o LSD. Ela e uma mulher transgênero que não havia passado por cirurgia de transição concordaram em tomar LSD e, no climax da experiência, elas concordaram em se olhar nuas, lado a lado, em frente a um espelho. “Nós iríamos nos olhar para ver se éramos monstros ou criaturas bonitas de Deus. Então, com as portas da percepção abertas, nós enxergamos a verdade: a verdade é que éramos bonitas”11.

Berkowitz, 12  uma mulher lésbica, escreveu sobre a experiência de encontrar suas avós em uma visão durante uma experiência com a ayahuasca em seu aniversário de 30 anos. Ela concluiu seu relato dizendo que sentia que havia “resgatado sua vida”.

Merkur13 descreveu o caso de um homem que tomou LSD e conseguiu com isso integrar e aceitar o fato de que havia tido experiências homossexuais no passado, experiências essas que ele não havia conseguido reconciliar com sua auto-imagem no passado. Ele chegou à conclusão de que isso não era uma questão “preocupante” e, durante a experiência com LSD, conseguiu se perceber sem julgamentos, de uma forma que foi curativa para si.

Annie Sprinkle14, uma profissional do sexo bissexual, educadora e performer, escreveu sobre suas experiências com drogas e enteógenos. Ela não experimentou ayahuasca, mas consumiu “pharmahuasca”, uma combinação de fontes de DMT e IMAO sintéticas e naturais. Ela relatou que teve a sensação de que tal experiência estava de alguma forma preparando-a para sua morte. Sua experiência também a levou a concluir que os enteógenos podem ter um papel na terapia para questões sexuais porque podem auxiliar as pessoas a ganharem uma perspectiva nova e renovada sobre sua identidade. Ela postula que sexualidade e uso de enteógenos são ambos sobre consciência e auto descoberta.

Esses e outros exemplos colhidos ao longo dos anos, incluindo minha própria dissertação sobre pessoas homossexuais e ayahuasca, mostram que gays e lésbicas podem se beneficiar do uso de psicodélicos para se curarem da homofobia cultural e estrutural de nossa sociedade.

Esses e outros exemplos colhidos ao longo dos anos, incluindo minha própria dissertação sobre pessoas homossexuais e ayahuasca, mostram que gays e lésbicas podem se beneficiar do uso de psicodélicos para se curarem da homofobia cultural e estrutural de nossa sociedade. Psicodélicos devem ser usados para revelar as pessoas da forma como são, e não para distorcer a mente, como acontece com a “terapia de conversão” e outros usos irresponsáveis, como os experimentos MK Ultra. É importante e providencial conscientizar as pessoas de como concepções de mundo e condições existenciais, inclusivas ou repressivas, podem influenciar na forma como concebemos e utilizamos as medicinas psicodélicas. Debate importante, especialmente agora que os interesses de mercado voltam mais uma vez seus olhos para os psicodélicos.

Referências:

  1. Drescher, J. & Zucker, K. J. (2006). Ex-gay research: Analyzing the Spitzer study and its relation to science, religion, politics, and culture. Philadelphia, PA: Haworth Press. 
  2. Stack, L. (2016, November 30). Mike Pence and ‘conversion therapy’: A history. The New York Times. 
  3. Groppe, M. (2018, February 16). After Rippon: Searching for clarity on Mike Pence’s stance on gay conversion therapy. Indystar.com. Retrieved from https://www.indystar.com/story/news/politics/2018/02/16/after-rippon-searching-clarity-mike-pences-stance-gay-conversion-therapy/343105002/
  4. Freud, S. (1951). A letter from Freud. The American Journal of Psychiatry, 107,786–787. http://dx.doi.org/10.1176/ajp.107.10.786. 
  5. American Psychological Association. (2008). Answersto your questions: For a better understanding of sexual orientation and homosexuality. Washington, DC: Author. Retrieved December 4, 2008 from http://www.apa.org/topics/sorientation.pdf
  6. Alpert, R. (1969). Drugs and sexual behavior. The Journal of Sex Research, 5(1), 50–56. 
  7. Grof, S. (2000). The psychology of the future: Lessons from modern consciousness research. Albany, NY: State University of New York Press. 
  8. Masters, R. & Houston, J. (2000). The varieties of psychedelic experience.Rochester, VT: Park Street Press. 
  9. Suppe, F. (1984). Classifying sexual disorders. Journal of Homosexuality, 9(4), 9­–28. 
  10. Denny, D. (2006). A word from the editor: The last time I dropped acid. Transgender Tapestry110, 63. 
  11. Denny, D. (2006). A word from the editor: The last time I dropped acid. Transgender Tapestry110, 63. 
  12. Berkowitz, J. (2008). Word to the mother: How Igave it up on my 30th birthday (I tried it). Curve, 77(1). doi A179885525. 
  13. Merkur, D. (2007). A psychoanalytic approach to psychedelic psychotherapy. In M. J. Winkelman & T. B. Roberts (Eds.), Psychedelic medicine: New evidence for hallucinogenic substances as treatments (pp. 195-211). Westport, CT: Praeger. 
  14. Sprinkle, A. (2003). How psychedelics informed my sex life and sex work. Sexuality and Culture, Spring, 59–71. Retrieved from https://maps.org/news-letters/v12n1/12109spr.html. 

Artigo originalmente publicado no site do Chacruna Institute, com o título “Can Psychedelics “Cure” Gay People“?

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