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“A energia não tem gênero”: experiências de transidentidades no Santo Daime

Respeito, disciplina, amor e humildade. Esses são os valores entoados nos hinos do Santo Daime. Originária da Amazônia brasileira, a doutrina espírita fundada pelo maranhense Raimundo Irineu Serra é considerada como sincrética por abranger elementos culturais e espirituais de diversos seguimentos teológicos e esotéricos: da religiosidade cristã, da filosofia e espiritualidade africana e afrobrasileira e dos xamãs indígenas. Penso que o estranhamento mais comum de pessoas LGBTQIA+ que visitam os trabalhos da doutrina pela primeira vez seja a vestimenta obrigatória atribuída aos gêneros ou da divisão dos batalhões nos salões de trabalho. E não foi diferente comigo. E é sobre a divisão social e cultural estabelecida entre os gêneros que irei discorrer brevemente neste texto baseado em uma pesquisa que desenvolvi recentemente.

A pesquisa teve como objetivo principal analisar a participação de homens transgêneros nos trabalhos de igrejas do Santo Daime, situada no município de Marabá, sudeste paraense da Amazônia Oriental. Para conseguir lidar com as questões éticas, teóricas e metodológicas da pesquisa, tive que me perceber no contexto da pesquisa do e no campo do Santo Daime para perceber meu lugar de fala enquanto uma pessoa cisgênero que estuda o “outro” (pessoas transgêneros). Pensar lugar de fala é vista como uma postura ética que possibilita percepções das hierarquias, das desigualdades, da pobreza, do racismo e do sexismo. Ou seja, todo mundo tem um lugar de fala, pois as pessoas falam a partir das suas localizações sociais (RIBEIRO, 2017).

Concordo com a crítica desenvolvida por Jaqueline de Jesus no prefácio do livro “Vidas Trans”, de que pessoas cisgêneras se comportam como se pessoas trans não falassem ou escrevessem sobre elas mesmas. Contudo, com a pesquisa que desenvolvi, não pretendi “dar voz” aos meus amigos que me confiaram suas histórias de vida, mas ouvir suas experiências e trazer o debate para as ciências humanas e, principalmente, para o campo de pesquisa ayahuasqueira que, infelizmente, é carente de pesquisas que abordem as categorias de gênero e sexualidade.

O feitio do Santo Daime

O trabalho de feitura do daime é um dos rituais mais importantes para os daimistas. O trabalho do feitio também é dividido por gênero. As mulheres trabalham com a coleta e lavagem das folhas da chacrona ou Rainha e os homens selecionam, higienizam e maceram cipó jagube e também organizam o processo de cozimento do chá.

Entretanto, as “exceções e conceções” existem desde o “tempo do mestre” (MOREIRA & MACRAE, 2011, p. 351). Acontece que, dependendo do contexto, os trabalhos recebem algumas alterações. Segundo relatos de fardadas nas igrejas marabaenses e, também, de acordo com registros fotográficos postados nas redes sociais das mulheres com as quais dialogava durante a escrita da etnografia, aconteceram episódios em que os homens trabalharam na lavagem das folhas, assim como em outras experiências, as mulheres trabalharam na colheita do cipó, na bateção e cozimento da bebida nas situações em que a quantidade de homens era inferior à quantidade de mulheres nos rituais, ou da quantidade de mulheres, respectivamente.

O desenho etnográfico mostra como funciona a bateção. Não tive intenção de representar identidades masculinas, com objetivo de demarcar o problema da pesquisa. As pessoas se reúnem em um espaço (igreja ou casa de feitio) e maceram o cipó com uso de um objeto de madeira chamados de marretes, porretes ou cacetes e, em outros contextos, há também o uso de máquinas moedoras. A quantidade de cipó superior a quantidade de homens pode ter sido o motivo da utilização da máquina para avançar no processo de feitio (e as mulheres não foram convocadas para o trabalho).

O feitio exige, de acordo com a cosmologia daimista, pensamento equilibrado, harmonia, fé, disciplina, humildade, amor e silêncio. As técnicas e tecnologias do feitio envolvem, também, uma série de restrições alimentares, sexuais e de consumo de substâncias alcoólicas. O trabalho de feitio é o ritual a qual tenho admiração particular. Foi no feito que tive acesso a muitas informações importantes para a pesquisa. Conheci um pouco mais sobre como os adeptos experimentam e vivenciam o ser daimista, sobre as organizações culturais e sociais das igrejas em Marabá e sobre seus pontos de vista, seus estigmas, seus padrões de comportamento e os processos de resistência aos tabus, dogmas e estereótipos sociais.

“A energia não tem gênero”: moral, “essências” e tabus

A transexualidade, travestilidade e não binaridade são identidades que não correspondem ao ideal cisgênero. Essas pessoas, na maior parte dos casos, sentem desconforto com seus corpos, por isso adotam características do gênero a qual se identificam. Esse desconforto é denominado pelos meus amigos-interlocutores da pesquisa como “disforia”. De acordo com Amara Moira (2017) é importante compreender, inicialmente, que ser trans não é sinônimo de uma pessoa com transtorno, uma doença ou com um problema psiquiátrico. Segundo a autora, ser trans significa uma pessoa que não se identifica com o gênero que lhe designaram ao nascer, isto porque a sociedade patriarcal associa as genitálias à determinadas categorias do gênero. Portanto, é ofensivo e caracteriza-se transfobia dizer “o travesti”, pois essa é uma identidade feminina.

A identidade de gênero é sobre como as pessoas se entendem, sobre como querem viver suas vidas e como imaginam seus corpos. A luta de pessoas trans é para que cada ser tenha o direito de descobrir quem é. As cisgênero, por outro lado, são as pessoas que se identificam com a genitália e o gênero designado ao nascer. O gênero como uma categoria de análise (e não um recorte de pesquisa) têm se mostrado cada vez mais amplo e urgente. Um dos resultados da pesquisa diz respeito a frase: “a energia não tem gênero” mencionada em vários momentos das conversas-entrevistas com os meus amigos-interlocutores que me direcionou para algumas problematizações e análises que não se esgotaram.

“SER!”. Registro em diário gráfico: Alana Silva, 2021.

                O problema está na aparente contradição entre os ensinamentos presentes nos hinários da doutrina e a moral da irmandade. Quando reflito sobre a “energia” não ter gênero percebo que ela possui relação de proximidade com a cosmopercepção daimista de que “habitamos neste planeta em um aparelho, em uma carcaça para aprender com a vida na terra”, ou seja, a “energia não tem gênero”, porque está relacionada com o “interior” do ser que habita o “corpo-matéria” (SILVA, 2021, p.67).

Essa percepção serve como “uma luz no fim do túnel” para pessoas que sentem forte conexão com a espiritualidade através do chá e decidem permanecer nos centros em que experienciam situações constrangedoras com perguntas como “deixa eu ver sua identidade?” ou “você é homem ou mulher?

“[…] até porque eu sei que os meus guias não, eles não falham nessa questão e eu senti que eles iam dar o discernimento certo, espiritualmente falando pro dirigente e ele deveria saber qual lado eu deveria ficar. […] eu recebi as instruções divinas que eu não deveria me preocupar com o que os outros pensavam e até então eu permaneço no sagr… [sagrado] no batalhão masculino e me sinto muito bem nos trabalhos no lado que eu fico.” (AMIGO-INTERLOCUTOR, 2021).

Isto porque a intensão de encaixar o público LGBTQIA+ tem como origem, de acordo com Platero (2019), os padrões morais de lideranças e, acrescentaria a partir da minha pesquisa de campo, que os dos fardados também reproduzem os argumentos que prevalecem na sociedade e não dos “ensinamentos do plano espiritual” (autora, 2021). A antropóloga relata que quando as pessoas da igreja carioca onde ela é fardada conheceram sua “sexualidade desviante”, configurou-se a seguinte situação: o tabu – que a orientava pela moral da liderança (de um lado) e a instrução espiritual – que orientou o autoconhecimento e amor e não a correção (de outro).

            Embora as situações vividas por Platero (2017) dizem respeito à sexualidade, a mesma moral que justifica a homofobia é a mesma que fundamenta a transfobia, desde a sua forma mais sutil aos de constrangimentos públicos que as pessoas trans são submetidas quando tentam acesso à bebida sagrada nos centros daimistas. Quando reflito sobre as (im)possibilidades de pessoas trans exercitarem a espiritualidade daimista, penso nos relatos de situações em que essas pessoas são constrangidas e/ou forçadas a integrar um batalhão que não condiz com sua identidade de gênero.

“[…] na primeira ida não foi uma experiência muito legal por conta da desinformação do centro sobre a questão da diversidade de gênero a qual eu sou integrado, a qual eu me sinto, né. Eu sou um homem trans e… quando eu fui participar desse trabalho eu tava era, em processo de transição, eu era “pré-T”. No processo de transição hormonal nessa questão que eu ainda não tinha começado, ainda tinha características de estereótipos de características ditas femininas, né. E foi um pouco constrangedor, porque eu fui obrigado a ficar no sagrado a qual não representa a minha identidade de gênero, que foi o batalhão feminino, fui obrigado a ficar no batalhão feminino, por conta que eu não tinha o documento retificado. Não foi uma experiência legal porque eu não consegui me conectar com a corrente do trabalho. E… a segunda vez que eu voltei lá, no mesmo centro depois de alguns meses sem ir eu fiquei no batalhão masculino, já tinha começado a minha transição hormonal e já tinha algumas mudanças visíveis, né, a olho nu. Questão da… do meu corpo, do meu rosto, minha voz. E eu fiquei no batalhão masculino e foi aí que eu consegui me incluir na corrente, foi a partir desse segundo trabalho.” (AMIGO-INTERLOCUTOR, 2021).

Nas igrejas marabaenses, estas “possibilidades” estão pautadas na “passabilidade de gênero” que está relacionado à leitura social que as pessoas fazem dos corpos trans. Corpos trans existem e devem ser respeitados nas suas pluralidades, entretanto, muitas iniciam procedimentos hormonais e utilizam instrumentos que estão para além de parecerem mulheres ou homens “de verdade”. A “passabilidade” é problemática, pois reforça a obrigatoriedade de expressões de gênero binárias.

Arte de Mariom Luna.

Reflexões em curso

As experiências de gênero, como as elencadas neste trabalho merecem atenção e devem pensadas no âmbito científico como a possibilidade de novos diálogos com pesquisadoras e pesquisadores ayahuasqueiras (ou não) para avançar no debate do gênero, seja como uma construção social ou formas de organização social. Em concordância com as pessoas transgêneros, transexuais, travestis, não binários, andrógenas e cisgêneros que acompanho nas redes sociais e no dia a dia, é relevante encerrar este texto afirmando que as pessoas podem, devem e tem o direito de viver e se expressar sem medo de ser feliz.

Referências

MAECRAE, Edward. Guiado pela lua: xamanismo e uso ritual da ayahuasca no culto do Santo Daime. São Paulo: Brasiliense, 1992;

MOIRA, Amara. Vidas Trans: a coragem de existir. Bauru, SP: Astral Cultural, 2017;

MOREIRA & MACRAE. Eu venho de longe: Mestre Irineu e seus companheiros. Salvador: EDUFBA, 2011;

PEIRANO, Mariza. A eterna juventude da antropologia: a etnografia e teoria vivida. Site: https:// marizapeirano.com;

PLATERO, Lígia. Uma experiência de casamento no Santo Daime. Blog Bia Labate, 2017. Disponível em: https://www.bialabate.net/news/uma-experienciade- casamento-homossexual-no-santo-daime. Acesso: 20 de dezembro de 2020;

RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala?Belo Horizonte: Letramento, 2017;

SILVA, Alana. Transgeneridade e Santo Daime: as (im)possibilidades de uma busca espiritual daimista. 2020. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação) UNIFESSPA-ICH, FACSAT, Curso de Bacharelado em Ciências Sociais, Marabá, 2020. Disponível em: http://repositorio.unifesspa.edu.br/handle/123456789/1551. Acesso em: 05/04/2021;

_____________Transgeneridade e Santo Daime: as (im) possibilidades de uma busca espiritual ayahuasqueira. Aceno – Revista de Antropologia do Centro-Oeste, 8 (16): 119-130, janeiro a abril de 2021. ISSN: 2358-5587.

Arte de Fernanda Cervantes.

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