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A importância decisiva das mulheres na pesquisa sobre mescalina

Em 1905, várias mulheres (e um homem), detidas em uma instituição psiquiátrica em Breslau, hoje Polônia, foram expostas à administração de extratos do cacto peiote por via intravenosa. Pelo menos duas delas tiveram, como parece, experiências “místicas” completas. Em 1920, uma estudante de medicina, Leni Alberts, fez as primeiras experiências com mescalina pura na Clínica Universitária em Heidelberg, que viria a se tornar o ponto de encontro dos Estudos Psicodélicos (avant la lettre) durante o período entre guerras. Seus sujeitos experimentais eram psiquiatras treinados, que pareciam estar extraordinariamente alegres enquanto “sob influência”. O que torna excepcionais estes dois casos históricos de investigação da planta e sua principal substância psicoativa é que eles documentaram aspectos que geralmente eram ignorados ou mesmo suprimidos na exploração científica moderna dos psicodélicos: 1) a dimensão enteógena das experiências induzidas pelos cactos, e 2) o potencial terapêutico da mescalina, útil para o tratamento da depressão.

I. Epifanias Involuntárias (1905)

What if He came back, (E se ele voltasse?)
What if He came back as a plant? (E se ele voltasse como uma planta?)
Would you let Him in (Você o deixaria entrar?)
Would you let Him into your heart?
(Você o deixaria entrar em seu coração?)
– Guy Mount, “Canção do Peiote”

É amplamente conhecido que os primeiros “psiconautas” ocidentais que exploraram os efeitos do peiote foram médicos norte-americanos e britânicos, e a primeira série de experimentos medicinais com “Anhalonium lewinii” (Lophophora williamsii) foi realizada na Universidade de Columbia por D. W. Prentiss e Francis P. Morgan. As primeiras, embora involuntárias, psiconautas mulheres, no entanto, foram sujeitos de pesquisa em uma pequena série de experimentos com mescalina realizados pelo influente psiquiatra Dr. Johannes Bresler (1866-1942) em Breslau, então parte do Império Alemão.

Em 1898, Arthur Heffter concluiu sua análise farmacêutica do peiote isolando quatro alcalóides diferentes e identificando a “Mezkalin” (C11 H17 NO3) como seu principal ingrediente psicoativo: obviamente, foi esta substância a única responsável pelas “belas visões de cor” (schöne Farbvisionen), que foram consideradas como a característica distintiva do cacto tomado como um todo. Devido aos incômodos efeitos colaterais fisiológicos (náusea, dor de cabeça, etc.) que a experiência produzia, ele duvidava que a mescalina fosse alguma vez de valor terapêutico. Sua própria experiência desconfortável explica, em parte, porque foram necessárias mais de duas décadas para que a pesquisa com mescalina decolasse.

A blooming peyote cactus in a planter with colorful cacti behind it.
Peiote. Wilferd Duckitt, Flickr Commons.

A empresa farmacêutica E. Merck manteve-se muito atenta às últimas descobertas da época; em 1912, o “Mescalin sulfuricum” foi oferecido pela primeira vez como um produto químico de pesquisa. Portanto, quando Bresler fez seus experimentos com mescalina em 1905, ele utilizou extratos da planta como um todo. Bresler, que logo se revelaria um ardente admirador de Adolf Hitler, garantiu a seus leitores que informava os sujeitos de seus testes sobre os efeitos fisiológicos desagradáveis do soro, “mas é claro que não sobre a ocorrência de visões”.

As primeiras participantes de experiências de pesquisa com mescalina foram sobretudo mulheres

Pouco se sabe sobre os sujeitos que participaram de experimentos exceto por suas iniciais, sua idade, sexo e um pequeno esboço de seus diagnósticos: Sra. Sch. (mulher, 47 anos, paranóia), B. (mulher, 29 anos, epiléptica), L. (mulher, 25 anos, epiléptica), F. (mulher, 24 anos, epiléptica), R. (homem, 43 anos, psicótico). Dois deles, Sch. e B., tiveram (ou foram autorizados?) que participar de dois turnos cada. Especialmente a Sra. Sch., e, para sua segunda “sessão”, a Sra. B., tiveram visões religiosas. Depois de conhecer as duas filhas falecidas, Sch. percebeu uma parafernália sagrada, encontrou três virgens brancas, e finalmente até a própria santa mãe de Deus, Jesus na cruz e vários anjos da guarda que falaram com ela (Bresler não anotou o que os anjos disseram a ela). Depois de ouvir os sinos tocar, F. também encontrou a santa virgem, sob o disfarce da Madona (Negra) de Częstochowa: “Estou no império celestial”, relata B., “Eu vi Santa Maria, é como se eu quisesse morrer”, acrescentando: “Agradeço a Deus por esta bela visão, que tive enquanto estava em meu perfeito juízo; outros poderiam pensar que eu não estou em meu perfeito juízo, já que estou percebendo tais coisas”.

Erzulie Danto – uma deusa vudu haitiana semelhante à Virgem Negra de Czestochowa.
Pintura à óleo de Magdalena Walulik.

Bresler parece ter descartado o significado dessas visões concluindo que “o conteúdo das visões está de acordo com a vida da imaginação (Vorstellungsleben), o que era de se esperar”. Foi em grande parte graças à natureza franca dos relatórios das mulheres destemidas, que não tinham nada a perder e podiam falar livremente, que Bresler teve a idéia de que “Anhalonium lewinii” poderia se mostrar útil “para pacientes que sofrem de ilusões de ótica agonizantes persistentes, com as visões de mescalina relegando-as a segundo plano, pelo menos temporariamente”.

“A Mescalina inaugurou a era psicodélica, mas teria um papel pequeno em seu futuro.”

Mike Jay

II. Observações a frente de seu tempo de Leni Alberts (1921)

Em um artigo recente, o neurocientista Robin Carhart-Harris declarou: “Não podemos mais ignorar o potencial das drogas psicodélicas para tratar a depressão”. Em muitos aspectos, Carhart-Harris está repetindo uma afirmação que Leni Alberts fez quase 100 anos antes, quando ela disse:

“A ocorrência de um estado eufórico […] em todos os sujeitos experimentais de pesquisa me faz pensar que a mescalina pode ser útil para superar estados mentais melancólicos, desde que os desagradáveis efeitos colaterais possam ser reduzidos. As visões, que só aparecem no escuro ou com os olhos fechados, não estariam necessariamente no caminho deste tratamento terapêutico”.

Quando Alberts identificou esta característica, ela o fez quase como um aparte. Para descobrir os efeitos da mescalina, ela pediu a seus sujeitos de teste que cumprissem uma série de tarefas, como simples exercícios aritméticos, anagramas, testes de leitura e estimativas de peso. Ela então comparou os resultados de seus testes enquanto “sob a influência” com seus resultados “sóbrios”. Alberts observou uma diminuição geral da capacidade de processamento cognitivo, mas a mescalina não parecia ter um efeito geral negativo no raciocínio ou capacidade de resolução de problemas. Apesar do pequeno alcance e amostra, o trabalho de Leni Alberts revelou uma promessa oculta e inspirou mais estudos sobre a mescalina.

Trecho do apêndice da tese de Leni Alberts sobre mescalina (1921).

A partir da sintetização totalmente artificial do químico vienense Ernst Späth, a mescalina tornou-se um “instrumento de trabalho” científico adequado. As experiências com mescalina na Clínica Universitária em Heidelberg precipitaram um boom internacional de pesquisa. A tese de doutorado de Alberts deu início a esta fase pioneira dos Estudos Psicodélicos.

Alberts lutou para conseguir que os sujeitos de teste se concentrassem em suas respectivas tarefas e notou seu humor alegre durante os experimentos “mescalinos”. O contraste com seu comportamento habitual era suficientemente marcante para que ela descrevesse algum tipo de estado de euforia. Outros pesquisadores contemporâneos, no entanto, não deram seguimento a esta observação.

Por que levou tanto tempo para os cientistas reconhecerem os efeitos salutares da mescalina?

Não há uma resposta simples. No entanto, há provavelmente cinco razões inter-relacionadas para o fracasso da ciência moderna em reconhecer a verdadeira natureza do peiote e sua mescalina derivada:

  1. Uma superestimação do significado dos efeitos imaginários e “visionários” como a característica farmacológica mais decisiva da droga, classificada como “alucinógena.” Alberts, contido, percebeu que essas potencialidades visionárias poderiam acabar ofuscando suas propriedades terapêuticas.
  2. A forma como a mescalina supostamente imitava a psicose resultou em um estranho “loop” epistemológico, no qual a mentalidade dos psiquiatras e o ambiente institucional os levou a considerar os efeitos como patológicos.
  3. A mescalina foi vetada tanto de pacientes como de pessoas com histórico de problemas de saúde mental (um tabu ainda hoje).
  4. A ciência supostamente deveria ser um “negócio sério”, e psiquiatras “psiconautas” prejudicariam a validade científica de suas investigações exploratórias.
  5. Finalmente, a ciência em geral é um esforço agnóstico e, por razões estruturais, não pode recorrer a alguns “deus ex botanica” para explicar seus resultados. Assim, foi somente depois que o Peiote, a Mescalina, o LSD-25, etc., tornaram-se drogas populares, consumidas fora do “espaço seguro” da psiquiatria e da camisa de força do reducionismo, que seus benefícios terapêuticos – decorrentes de suas qualidades eufóricas ou espirituais – puderam ser plenamente levados em conta em um nível mais amplo.

Concluímos que, se as observações de Leni Alberts fossem seguidas mais de perto desde o início, algumas dessas reflexões e pesquisas sobre o peiote e a mescalina não precisariam ter levado 100 anos para ressurgir.

Texto originalmente publicado no Chacruna Institute, em inglês.

Arte de Mariom Luna.

Tradução de Glauber Assis.

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