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A influência histórica das mulheres no debate sobre “set” e “setting”

8 de Noviembre del 2021
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Zoë Dubus es estudiante de doctorado en historia contemporánea en Francia. Estudia las transformaciones de las prácticas médicas y las políticas de salud en relación al uso de psicotrópicos (morfina, cocaína y LSD), desde el siglo XIX hasta la actualidad.

Enquanto personalidades como Timothy Leary e Al Hubbard tem sido reconhecidas por suas contribuições para a história do “set e setting”, mulheres pesquisadoras pioneiras permanecem marginalizadas nos anais da história psicodélica.

Em relação às experiências com drogas psicodélicas, os conceitos de “set e setting” se referem à condição mental do indivíduo e aos ambientes físico e social nos quais a experiência com drogas acontece. Enquanto personalidades como Timothy Leary e Al Hubbard tem sido reconhecidas por suas contribuições para a história do “set e setting”, mulheres pesquisadoras pioneiras permanecem marginalizadas nos anais da história psicodélica.

É impressionante que o trabalho de Joyce Martin, Margot Cutner e Betty Eisner é tão pouco conhecido e raramente discutido em comparação com a pesquisa de seus respectivos e famosos colaboradores, Ronald Sandison, Thomas Ling e Sidney Cohen.

Este artigo destaca o trabalho dessas mulheres e seu impacto sobre essa emergente forma de terapia nos anos 1950 e 1960. Todas essas três mulheres inventaram uma abordagem terapêutica com seus pacientes que era compreensiva, benevolente e não intrusiva, e que quebrava radicalmente com métodos tradicionais.

“Set e Setting”: Suas origens

Nos anos de 1950, algumas pessoas na comunidade médica começaram a reconsiderar a metodologia aplicada a psicoterapias que se utilizavam do LSD. Psiquiatras que experimentaram o consumo de LSD geralmente relatavam experiências muito positivas, que frequentemente aconteciam em suas próprias casas ou escritórios, espaços que eram acolhedores e confortáveis. Eles eram livres para ir e vir, e agir da forma que achavam mais apropriada, e tinham um conhecimento prévio do LSD, seus efeitos e sua duração. Se os relatos dos experimentos psiconauticos davam protagonismo para o estado de euforia em relação à substância, este não era o caso nos experimentos realizados em seus pacientes, quer fossem eles saudáveis ou doentes. Nessas situações, as pessoas frequentemente sentiam ansiedade ou até mesmo terror. Em face a esses resultados, alguns terapeutas tentaram melhorar seus protocolos de atendimento, e, ao fazer isso, colocaram em xeque a própria prática psiquiátrica.

Nesse novo modo de abordagem, que levava em conta o contexto físico e emocional, ou “set e setting”, os terapeutas levavam a sério seus pacientes, com suas histórias e seus relatos da experiência. Os pacientes eram assim informados do efeito da substância, o quarto onde os experimentos aconteciam eram decorados de forma especial, e os pacientes também tinham permissão para trazer consigo itens pessoais para a sala de exames. Além disso, uma pessoa permanecia com eles durante toda a sessão, mantendo um olhar atento.

Por outro lado, no caso das terapias tradicionais, a postura da equipe de atendimento era “disciplinada” e distante. Os quartos do hospital eram brancos, iluminados por luzes florescentes, e sem nenhum tipo de decoração. Alguns pacientes eram até mesmo amarrados a suas camas. Os sujeitos, que frequentemente padeciam de sofrimento mental, tinham que se submeter a experimentos sem ter recebido nenhum tipo de informação detalhada e eram empurrados a uma bateria de cansativos testes. Por volta do final dos anos 1950, a explicação dominante para os efeitos do LSD era através do conceito de “psicomimético”, que pretendia falar da simulação de estados de psicoses, confinando assim o entendimento da reação dos consumidores a uma interpretação exclusivamente patológica.

Ao propor uma nova interpretação sobre os efeitos do LSD, desta vez direcionada a um objetivo terapêutico através da criação de uma nova forma de administrar essa droga, alguns terapeutas desenvolveram a psicoterapia psicodélica com LSD.

As mulheres pioneiras na história do “Set e Setting”

Joyce Martin (1905-1969)

Joyce Martin

Joyce Martin foi uma psicanalista freudiana. Uma pioneira no uso do LSD na psicoterapia, ela começou sua pesquisa em 1954, tanto em sua prática privada como também no Marlborough Day Hospital em Londres.

Joyce Martin foi uma psicanalista freudiana. Uma pioneira no uso do LSD na psicoterapia, ela começou sua pesquisa em 1954, tanto em sua prática privada como também no Marlborough Day Hospital em Londres.

Em 1964, Martin publicou um artigo no qual ela distinguia seu método daquele de Sandison e Ling; mais notadamente este método trazia um “apoio ativo e direto ao paciente para suas carências emocionais quando necessário” (Martin 1964).   Ela desenvolveu um método particularmente controverso no qual agia como uma mãe para o paciente. Neste cenário, o paciente era encorajado a regressar a seu estado infantil, enquanto Martin oferecia uma presença amorosa e ativa. Martin insistia que a resposta à carência emocional do paciente não era artificial. Afirmava que:

Nós não estamos oferecendo apenas uma réplica ou simulação, mas algo mais parecido com o seio original e o início de uma relação de amor (…)  este é o nosso objetivo, portanto: desenvolver uma relação de transferência o mais rápido possível para permitir o fortalecimento do ego e permitir que sentimentos até então insuportáveis sejam aceitos e assimilados dentro de personalidade consciente, aliviando o conflito e curando seus sintomas, de modo a integrar a personalidade.

Juntamente com sua assistente Pauline McCririck, ela desenvolveu um sistema chamado de “terapia fusional”, que consistia em deitar ao lado de seus pacientes e “abraçá-los da mesma forma que uma boa mãe faria para confortar sua criança” (Grof & Grof 2010:42).

Margot Cutner (1905-1987)

Margot Cutner (1905-1987), nascida “Kuttner”, foi uma psicanalista Jungiana de origem alemã.  Tendo realizado o doutorado em psicologia (PhD) em Hamburgo em 1936, ela voou da Alemanha Nazista em direção à Inglaterra, onde anglicizou seu nome. Teve treinamento com Elsa Gindler, uma pioneira em terapia corporal, e depois iniciou sua própria prática de psicanálise. Uma das técnicas que ela desenvolveu envolvia encontrar a posição mais confortável para o paciente, livre de qualquer tensão ou estresse Cutner 1953). Em 1955, ela se juntou ao time de Ronald Sandison no Powick Hospital em Worcester. Um departamento especial foi criado nesse hospital para promover pesquisas com LSD.

Em 1959, Cutner apresentou seu método terapêutico. Ela observou que a pesquisa que emergia sob a influência do LSD, “longe de ser caótica, revela, ao contrário, uma relação decisiva para as necessidades psicológicas do paciente no momento que consume a droga”  (Cutner 1959). Ela enfatiza esse ponto: “é óbvio que não seria seguro dar a droga sem supervisão adequada a ninguém que não está bem com sua própria consciência.” Cutner expressou sérias reservas sobre o uso repetitivo do LSD como uma tentativa de quebrar a resistência psíquica do paciente. Em suas práticas, certos pacientes, que estiveram sob tratamento por dois anos, tiveram somente 2 ou 3 sessões com LSD.

Cutner, a psicanalista, também prestou atenção a suas próprias reações durante as sessões, se certificando de agir da mais gentil e hospitaleira forma possível de modo que o paciente pudesse confiar nela completamente. Ela era especialmente observadora de suas próprias expressões faciais, que ela queria que expressassem sempre amor e ausência de julgamento.

Sua especial atenção ao corpo e suas manifestações fizeram dela uma pessoa sensível para a necessidade de contato de indivíduos sob a influência do LSD: em um certo nível de regressão causado pela substância, “é óbvio que o contato pelo toque, que algumas vezes é a única coisa que o paciente consegue compreender nessas situações, revive e representa suas primeiras experiências de segurança no abraço físico da mãe”. Assim, “para obter a segurança necessária, por vezes não é suficiente para o paciente sentir o analista tocando suas mãos, mas ele mesmo precisa tocar o analista, suas roupas, etc”.  Cutner, a psicanalista, também prestou atenção a suas próprias reações durante as sessões, se certificando de agir da mais gentil e hospitaleira forma possível de modo que o paciente pudesse confiar nela completamente. Ela era especialmente observadora de suas próprias expressões faciais, que ela queria que expressassem sempre amor e ausência de julgamento.

Betty Eisner (1915-2004)

Betty Eisner

No dia 10 de novembro de 1955, Betty Eisner se tornou a primeira “cobaia” para os experimentos de Sidney Cohen. Sua segunda sessão aconteceu em janeiro de 1957. Dessa vez, ela explorou o potencial terapêutico do LSD. Para ela, que fora deixada sozinha, o final da sessão tomou uma dimensão profundamente depressiva: “Eu tive uma experiência péssima”. Ela contou como finalmente decidiu entrar em contato com Cohen, procurando apoio (emocional). Entretanto, ele não a levou a sério, mesmo quando ela indicou o risco de suicídio que sofria, e indicou a ela que devesse apenas ter algum descanso. “Eu claramente me lembro de contar a ele que não seria legal para a pesquisa se a psicóloga que era sujeito da pesquisa cometesse suicídio. Mas ele não se impressionou“, ela relata.

Em duas sessões, Eisner já tinha tida a experiência tanto da frustração de passar por uma bateria de testes realizados e de não estar apta a apenas se deixar levar levar pela substância, como de vivenciar terrores promovidos sem a ausência do apoio adequado. Nas duas sessões subsequentes, ela decidiu consumir apenas uma dose bem baixa, 25 μg, que a tirou da depressão e proporcionou a ela uma “experiência mística”. Depois disso, ela ficou convencida a usar doses baixas em sua prática, exatamente o oposto de seus colegas norte-americanos, que estavam desenvolvendo uma “terapia psicodélica” baseada em doses altas. 

Em duas sessões, Eisner já tinha tida a experiência tanto da frustração de passar por uma bateria de testes realizados e de não estar apta a apenas se deixar levar levar pela substância, como de vivenciar terrores promovidos sem a ausência do apoio adequado. Nas duas sessões subsequentes, ela decidiu consumir apenas uma dose bem baixa, 25 μg, que a tirou da depressão e proporcionou a ela uma “experiência mística”. Depois disso, ela ficou convencida a usar doses baixas em sua prática, exatamente o oposto de seus colegas norte-americanos, que estavam desenvolvendo uma “terapia psicodélica” baseada em doses altas.  “A beleza de doses pequenas de LSD era que elas davam a oportunidade da pessoa ir até o ponto que quisesse. Talvez somente um pouco no começo, um pouco mais na próxima vez, e finalmente essas experiências abririram a possibilidade da experiência acontecer completamente (…) nós mantíamos a realização de sessões até que a coisa acontecia“, lembra Eisner.

Além da postura de que os pacientes sempre fossem acompanhados pessoalmente por alguém durante a sessão e que as doses começassem baixas e fossem evoluindo paulatinamente, ela foi a primeira a escrever sobre a utilidade de músicas serem tocadas durante as sessões. Finalmente, ela também insistia que dois terapeutas, um homem e uma mulher, estivessem presentes de forma que os pacientes pudessem vê-los como seus pais e projetar no casal seus sentimentos em relação ao que estava sendo experienciado.

Em 1997, ela propôs um terceiro conceito a ser adicionado ao “set” e “setting”: “matrix”. A matrix representaria simultaneamente o ambiente no qual o paciente se encontrava durante sua experiência psicodélica, assim como o ambiente em que o paciente viveu no passado e aquele no qual ele iria se inserir uma vez que o tratamento estivesse terminado (Eisner 1997).

Conclusão

Essas três mulheres tiveram um importante impacto no campo ao aperfeiçoarem os métodos de administração terapêutica do LSD. Embora fossem figuras conhecidas durante suas carreiras, Joyce Martin, Margot Cutner e, em menor grau, Betty Eisner foram gradualmente sendo apagadas da pesquisa sobre a história dos conceitos de “set” e “setting” e dos psicodélicos.

Essas três mulheres tiveram um importante impacto no campo ao aperfeiçoarem os métodos de administração terapêutica do LSD. Embora fossem figuras conhecidas durante suas carreiras, Joyce Martin, Margot Cutner e, em menor grau, Betty Eisner foram gradualmente sendo apagadas da pesquisa sobre a história dos conceitos de “set” e “setting” e dos psicodélicos. Seu trabalho é essencial para o entendimento das principais mudanças e transformações trazidas para a terapia assistida com LSD em determinada época histórica e ilustram claramente o papel das mulheres no cenário psicodélico e sua importante atenção dada aos corpos e emoções de seus pacientes.  

Tradução de Glauber Assis.
Arte de Fernanda Cervantes.

Referências Bibliográficas

Cutner, Margot. 1953. “On the Inclusion of Certain ‘Body Experiments’ in Analysis”. British Journal of Medical Psychology 26(3‑4):262‑77.

Cutner, Margot. 1959. “Analytic Work with LSD 25”. Psychiatric Quarterly 33(4):715‑57.

Eisner, Betty Grover. 1997. “Set, setting and matrix”. Journal of Psychoactive Drugs 29(2):213‑16.

Eisner, Betty Grover. 2002. Remembrances of LSD Therapy Past. [unpublished manuscript].

Eisner, Betty Grover. 2005. “The Birth and Death of Psychedelic Therapy”. P. 91‑101 in Higher Wisdom: Eminent Elders Explore the Continuing Impact of Psychedelics. New York: State University of New York Press.

Grof, Stanislav, et Christina Grof. 2010. Holotropic Breathwork: A New Approach to Self-Exploration and Therapy. New-York: State University of New York Press.

Martin, Joyce. 1964. “L.S.D. Analysis”. The International Journal of Social Psychiatry 10:165‑69.

Este artigo foi publicado originalmente pelo Chacruna Institute.

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