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Um convite para a diversidade nos grupos ayahuasqueiros

28 de Diciembre del 2020

Camila de Pieri Benedito. Doutora em Sociologia pela UFSCar, professora de filosofia no ensino básico, membro do NEIP e do ICARO/ Unicamp e colaboradora do Projeto Healing Encounters (CERMES3).

As faces mais preconceituosas do Brasil estão na agenda reacionária do governo de Jair Messias Bolsonaro, agenda essa que atua sobre grupos minoritários como a população LGBTQIA+, mulheres, pretes e indígenas. Infelizmente, ela não é um fenômeno surpreendente ou sem precedentes na história do país, mas é o efeito de um projeto de nação que escolheu não olhar de frente sua história de violências, colonialismo, escravidão e ditadura. Essa escolha deve nos servir como um sinal.

E são muitos os movimentos populares de resistência que desafiaram e continuam a desafiar a hegemonia colonial, mostrando que a diversidade de pessoas e de projetos é real, e que uma existência digna para todes é uma luta que vale a pena ser lutada.

Esse sinal foi visto pelos movimentos contra reacionários que igualmente marcam a história de nosso país. E são muitos os movimentos populares de resistência que desafiaram e continuam a desafiar a hegemonia colonial, mostrando que a diversidade de pessoas e de projetos é real, e que uma existência digna para todes é uma luta que vale a pena ser lutada.

Tal história de resistência abrange movimentos como o Cangaço, os clérigos do movimento da Teologia da Libertação e suas lutas contra a ditadura militar no Brasil, as resistências dos saberes indígenas, as décadas de luta da população LGBTQIA+ e a ainda mais antiga luta do movimento negro, conquistadora de algumas das mais importantes leis que preservam e protegem diversidade e acessibilidade no país, e é berço de muites de nosses maiores intelectuais.

E movimenta-se em resistência também a vida cotidiana. Como o filósofo Walter Benjamin nos ensinou, para que possamos sobreviver aos tempos mais sombrios, devemos nos propor a perseverar e a registrar os acontecimentos vistos como pequenos, entendendo que nossa sobrevivência é uma revolução em si. E foi assim, como um movimento de sobrevivência e resistência, que nasceram as primeiras religiões ayahuasqueiras.

Foi na primeira metade do século XX, mesmo período em que o Estado brasileiro reivindicava para si o território do Acre, que essa história se iniciou. Neste período e local, famílias de formação majoritariamente pretas e migrantes do nordeste ao norte do país tiveram sua mão de obra aproveitada – e depois descartada – na apropriação e exploração nos seringais.

Com os abalos políticos e econômicos – especialmente marcados pelo que ficou conhecido como a quebra do mercado da borracha -, essas famílias foram as que mais sofreram o ônus desse dado projeto de modernização do país. Levadas dos seringais para a capital Rio Branco, acabarem se encontrando em uma situação de vulnerabilidade. Foi nesse contexto, que muitas dessas famílias reuniram-se em torno de cultos com ayahuasca, e assim acessaram saberes dos povos originários daquelas terras, criando modos de resistência ao processo a que foram submetidas.

As Religiões Ayahuasqueiras

Um importante consolo e espaço de resistência foi a reunião em torno do fundador do Santo Daime, Raimundo Irineu Serra. Homem preto, curador e liderança religiosa que reuniu em torno de si – não sem desafios, especialmente os marcados pelo racismo – seguidores.

E é por isso que não é estranho que pesquisadores do campo ayahuasqueiro e devotos descrevam a ayahuasca como revolucionária. Mestre Irineu criou uma forte comunidade com grande número de pessoas num Brasil pós-abolicionismo. Mais tarde, Sebastião Mota e Rita Gregório de Melo – também conhecidos como padrinho Sebastião e madrinha Rita -, criaram uma nova comunidade que abraçou a contracultura e pessoas de todo país e do mundo. Foi lá que o estudo religioso da Cannabis sativa transformou a planta em Santa Maria, uma força que distribui paz para seus estudantes.

E embora esteja partindo da trajetória do Santo Daime, por ele ser foco dos meus estudos acadêmicos, devemos destacar o papel importante da Barquinha, fundada por Daniel Pereira de Matos (mestre Daniel), também na cidade de Rio Branco, e na construção de laços comunitários. Outro grupo importante é a União do Vegetal (UDV), fundado por José Gabriel da Costa (mestre Gabriel) em 1964, e hoje a maior religião ayahuasqueira em número de adeptos, e destaque por seus trabalhos em proteção ambiental. Além das religiões ayahuasqueiras, grupos que ficaram conhecidos como neo-ayahuasqueiros, têm crescido em número e em diversidade de práticas desde os anos 2000, e é possível encontrar entre eles trabalhos voltados ao acolhimento de pessoas que sofrem de usos problemáticos de drogas – revolucionário em um país marcado pela guerra às drogas -, e da população carcerária.

Mas isso é o suficiente para os nossos tempos?

Com a expansão das religiões ayahuasqueiras para além da Amazônia e do território nacional, pesquisas acadêmicas mostraram um embranquecimento crescente desses grupos e uma transformação no status de seus membros, que não mais se destacam como, majoritariamente, pessoas em situação de vulnerabilidade econômica.

É necessário o debate e a ação antirracista no centro das religiões ayahuasqueiras e dos centros neo-ayahuasqueiros.

Em uma sociedade marcada por movimentos como Vidas Pretas Importam, devemos ir além de destacar a importância e a existência de mestres e lideranças pretas como sinal de que se fala de práticas religiosas não racistas. É necessário o debate e a ação antirracista no centro das religiões ayahuasqueiras e dos centros neo-ayahuasqueiros, inclusive pensando sobre o significado e os impactos do embranquecimento dessas religiões e práticas e da acessibilidade. Nessa reflexão, deve-se também levar a crítica da visão muitas vezes romântica e racista sobre os povos originários e as origens da ayahuasca.

E há ainda outra questão que precisamos apontar, que é a emergência de discursos reacionários e de caráter misógino e LGBT+fóbico nesses grupos, como já exposto no artigo “‘Psicodelia de direita’: polarização se acirra entre usuários de ayahuasca” publicado por Carlos Minuano.

Nele, pessoas que pensam as diferentes tradições ayahuasqueiras dividem suas preocupações sobre a aproximação da ayahuasca com a agenda bolsonarista, destacando-se o caso de Luis Felipe Belmonte, mestre na UDV que já ocupou o maior cargo da instituição e que também é o vice-presidente do projeto de partido Aliança Brasil de Jair Bolsonaro.

Discurso LGBT+fóbicos nos círculos ayahuasqueiros

Em 2008 a UDV divulgou um pronunciamento interno oficial sobre homossexualidade, descrevendo-a como “uma prática indesejável” e “contra as leis de deus”. Essas palavras, que devem ser levadas a sério dado seu teor violento, vêm sendo destacadas nos últimos anos como um exemplo de discursos homofóbicos nos círculos ayahuasqueiros. Porém é importante destacarmos que essa não é uma questão restrita à UDV.

Em minha trajetória como pesquisadora e observando a ayahuasca através das lentes dos estudos de gênero, encontrei muitas pessoas autodeclaradas LGBTQIA+s que diziam ter sofrido algum tipo de discriminação em suas experiências enquanto curiosos ou devotos oficiais e isso em uma ampla diversidade de grupos das religiões ayahuasqueiras ou neo-ayahuasqueiros.

Especificamente sobre momentos em que a discriminação é invisibilização, é possível citar lugares onde, apesar de um discurso oficial de recepção à população LGBTQIA+s e aos relacionamentos homoafetivos, há uma prática que força os praticantes ao invisível ou ao menos visível, sendo-lhes negadas ou constrangidas demonstrações públicas de afeto. Sobre isso, o texto de Lígia Duque Platero e Klarissa Platero sobre o casamento de duas mulheres no Santo Daime é importante, e ele ainda mostra um final feliz depois de intensos movimentos por parte das mulheres e de seus amigos.

É há também casos em que o discurso oficial apresenta pessoas trans, não bináries e outras identidades de gênero dissidente, enquanto pessoas que passam por algum tipo de desequilíbrio entre suas partes “feminina” e “masculina”, ou sofrem de confusão ou doença. Quando não se propõe a criação de um espaço para se pensar expressões de gênero diversas, é inibida a participação e o acolhimento dessas pessoas.

Como um estudo de 2011 sobre jovens lésbicas, gays e bissexuais e saúde mental aponta, um ambiente que é realmente receptivo a pessoas LGBTQIA+ é essencial, pois essa população tende a sofrer mais de ansiedade e depressão, ideação e tentativas suicidas por conta da experiência do preconceito e pelo constante sentimento de não aceitação e de questionamento da validade de seus desejos e existência.

É importante destacar que esse sofrimento vem sendo inflamado desde 2018, com as eleições presidenciais e a intensificação da perseguição sobre uma suposta “ideologia de gênero” que estaria sendo propagada pela esquerda e pelo movimento LGBTQIA+ contra o ideal da “família tradicional brasileira”. Após a eleição, a criação do Ministério das Mulheres, Família e Direitos Humanos – comandada pela ex-pastora da Igreja Batista da Lagoinha, Damares Alves -, tem sido o principal palco de ações que mantém e fortalecem uma agenda LGBTfóbica, que busca não deixar espaço para nada além de uma nova era, iniciada com o governo Bolsonaro, na qual mulheres usam rosa e homens usam azul.

É importante que os grupos ayahuasqueiros não adiram às pautas preconceituosas e estejam abertos ao diálogo com seus frequentadores LGBTQIA+s, que tanto podem ajudar na construção de espaços efetivamente receptivos e seguros.

Em uma sociedade bancada por um discurso reacionário que pressiona essa população, é importante que os grupos ayahuasqueiros não adiram às pautas preconceituosas e estejam abertos ao diálogo com seus frequentadores LGBTQIA+s, que tanto podem ajudar na construção de espaços efetivamente receptivos e seguros. Como apontado por Cavnar, a ayahuasca se mostra como uma ferramenta importante para a superação de dores que envolvem LGBTfobia.

Ser Revolucionário em 2020 também significa acolher as mulheres

As falas misóginas de Bolsonaro e de Damares não são novidade para qualquer um que tenha acompanhado a história política mais recente do país. Seus discursos sobre gênero e sobre o papel da mulher na sociedade são especialmente atrozes. Discursos como esses também sustentam violências contra a mulher.

Os círculos da ayahuasca não estão imunes a casos de abuso sexual, mostrando a urgente necessidade de grupos ayahuasqueiros se posicionarem politicamente sobre esse tema, criando espaços efetivamente seguros e confortáveis para todes

Como demonstrado em um texto já publicado por aqui por mim e pela amiga e colabora Ana Gretel e em uma entrevista e  em uma fala com a antropóloga Bia Labate, Diretora Executiva do Instituto Chacruna, os círculos da ayahuasca não estão imunes a casos de abuso sexual, mostrando a urgente necessidade de grupos ayahuasqueiros se posicionarem politicamente sobre esse tema, criando espaços efetivamente seguros e confortáveis para todes. 

Considero que movimentos como a escrita do Guia da Comunidade Ayahuasqueira para Conscientização sobre Abuso Sexual Instituto Chacruna são importantes. E além deles, são também necessários que as instituições religiosas se abram para refletirem a segurança das mulheres em seus espaços, algo que é possível apenas quando suas vozes, em especial daquelas vítimas de abuso, são ouvidas com a seriedade que demandam. Práticas ativas de silenciamento de vítimas de abuso são comuns em nossa sociedade e são especialmente violentas às vítimas.

Quando trabalhando em minha tese de doutorado, testemunhei como o movimento do Sagrado Feminino trabalhou de forma positiva na criação de espaços mais seguros para mulheres se reunirem e dividirem experiências de vida difíceis, inclusive aquelas relacionadas a abusos sexuais e morais.

Porém há muito ainda para se fazer nesses círculos, que devem pensar além dos moldes da cigeneridade e dos papeis tradicionais de gênero, para serem ainda mais abrangentes. Quando se sustenta conceitos históricos – como nossos conceitos modernos de homem, de mulher, de família e de divisão sexual do trabalho – enquanto algo sagrado, tudo o que não se encaixa nessa proposta pode tornar-se profano e terminar por servir de justificativa para atos de violência.

Devemos tomar atenção constante para discursos do sagrado não sejam uma armadilha, como Tornquist tanto frisou em seu trabalho sobre o parto humanizado. Devemos tomar atenção para que o sagrado não se torne o sustento de um discurso abusivo.

A Ayahuasca Está em Movimento

As religiões ayahuasqueiras e os centros neo-ayahuasqueiros, assim como as demais práticas religiosas, se caracterizam por estarem em constante movimento. Da vida comunal ao uso ritual de Santa Maria, a introdução da Umbanda, do Ioga e do rastafarismo. Mas observo que mudanças e discussões relacionadas às mulheres e à população LGBTQIA+s têm sido demasiado lentas ou abafadas.

Quando questionados sobre o medo de repensarem – e até desfazerem – gênero, muitos devotos e pesquisadores da ayahuasca destacam que a prática ayahuasqueira é uma prática de minoria religiosa, propensa à perseguição de governos reacionários como o atual e que, por conta disso, assuntos como esse deveriam ser colocados de lado, pois são um tabu, um problema.

Escolher não falar sobre algo que é tão urgente, escolher manter as vidas LGBTQIA+ e das mulheres como um não assunto, não irá proteger a ayahuasca, irá apenas causar mais sofrimento à essas pessoas que possuem uma necessidade urgente de acolhimento, escuta e respeito.

Bem, mesmo abraçando a proposta de Bolsonaro, Luis Felipe Belmonte não deixou de ser criticado enquanto um usuário de ayahuasca “drogado” por um antigo membro do governo Bolsonaro. Escolher não falar sobre algo que é tão urgente, escolher manter as vidas LGBTQIA+ e das mulheres como um não assunto, não irá proteger a ayahuasca, irá apenas causar mais sofrimento à essas pessoas que possuem uma necessidade urgente de acolhimento, escuta e respeito. 

Levando essas vidas em consideração e em respeito à longa história revolucionária da ayahuasca, essas práticas devem se politizar, se refletirem e se transformarem. E é por isso que escrevo esse texto em dedicatória à população LGBTQIA+, às mulheres e a todas as crianças e jovens que estão nos grupos ayahuasqueiros. A dedicatória vai para vocês na esperança de que esse debate ressoe no coração de vocês e possa tornar suas trajetórias mais fáceis do que a minha, infelizmente, foi.

Com amor pela ayahuasca. Com amor por mim. Com amor por todes.

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