Além da União do Vegetal, ou UDV, religião ayahuasqueira brasileira com representação em alguns outros países, não parece haver outro grupo religioso local que possa fornecer um número exato de seus membros.

Como estudioso brasileiro da ayahuasca, sou frequentemente perguntado sobre o número de bebedores de ayahuasca no Brasil. Esta é uma questão complexa, uma vez que respostas razoavelmente precisas são fugidias. Além da União do Vegetal, ou UDV, religião ayahuasqueira brasileira com representação em alguns outros países, não parece haver outro grupo religioso local que possa fornecer um número exato de seus membros.

A UDV é reconhecida como a maior religião ayahuasqueira brasileira. Se entendermos como religião um grupo organizado de devotos com uma sede central, esta informação está provavelmente correta. Com a falta de informações certeiras, é comum estudiosos e jornalistas se referirem aos dados da UDV e estimarem o número de bebedores de outras tradições.

A UDV me informou, através de sua Presidência, que, no início de outubro de 2019, o grupo tinha 21.477 membros adultos em todo o mundo e 20.457 no Brasil. Considerando somente os membros brasileiros, os sócios do gênero masculinos estavam ligeiramente sobrerrepresentados: 51,7%. Quase um terço (31,7%) dos membros brasileiros vive na região Norte (Amazônia), seguidos pelos do Nordeste do Brasil (24,5%). Os membros da UDV têm níveis educacionais mais altos do que a média dos brasileiros: 55,4% deles possuem nível universitário.

Arte de Fernanda Cervantes.

Entretanto, precisamos nos perguntar: seria possível dizer que os dados da UDV representam todos os bebedores de ayahuasca no Brasil? Outros grupos com características claramente distintas também se dedicam ao uso religioso da ayahuasca.

Entretanto, precisamos nos perguntar: seria possível dizer que os dados da UDV representam todos os bebedores de ayahuasca no Brasil? Outros grupos com características claramente distintas também se dedicam ao uso religioso da ayahuasca.

Por exemplo, a filial do Santo Daime conhecida como ICEFLU (acrônimo para Igreja do Centro Eclético da Luz Fluente Universal) também é responsável pelo crescente número de bebedores de ayahuasca no Brasil e no mundo. Por outro lado, os demais grupos religiosos tradicionais – a Barquinha e o ramo original do Santo Daime, conhecido como Alto Santo – funcionam principalmente no estado amazônico do Acre, quase sem expansão. Para fins demográficos, porém, nenhum desses grupos religiosos tem dados garantidos sobre o número de seus membros.

Como o uso da ayahuasca no Brasil está altamente ligado à afiliação religiosa, uma estratégia possível seria examinar o censo geral da população. Os censos acontecem no Brasil a cada 10 anos, e o último ocorreu em 2010. Mesmo havendo esta grande lacuna, é possível baixar os microdados do Censo de uma recente plataforma online dedicada à contagem oficial da população brasileira.

O censo de 2010 registrou como possibilidade de afiliação religiosa as três religiões ayahuasqueiras tradicionais: Santo Daime, UDV e Barquinha. Contendo todas as faixas etárias – inclusive as crianças, designadas às religiões de seus parentes – os resultados foram os seguintes: 7.875 membros do Santo Daime, 9.380 afiliados da UDV e nenhum membro da Barquinha. As religiões neoxamânicas (nem todas bebem ayahuasca) tinham 874 membros. Isso significaria, de acordo com o censo brasileiro de 2010, que 17.255 indivíduos seriam membros ou do Santo Daime ou da UDV.

Nossos achados, que nunca haviam sido publicados antes, foram interessantes. O censo de 2010 registrou como possibilidade de afiliação religiosa as três religiões ayahuasqueiras tradicionais: Santo Daime, UDV e Barquinha. Contendo todas as faixas etárias – inclusive as crianças, designadas às religiões de seus parentes – os resultados foram os seguintes: 7.875 membros do Santo Daime, 9.380 afiliados da UDV e nenhum membro da Barquinha. As religiões neoxamânicas (nem todas bebem ayahuasca) tinham 874 membros. Isso significaria, de acordo com o censo brasileiro de 2010, que 17.255 indivíduos seriam membros ou do Santo Daime ou da UDV.

Entretanto, os dados do censo interno da UDV indicam que em 2012, somente esta religião tinha 16.167 membros adultos, sem incluir as crianças. Uma possível razão para tal discrepância é o fato de que os membros das religiões ayahuasqueiras ainda se declaram como “católicos”, “espíritas” ou “espiritualistas” quando questionados sobre sua filiação religiosa, em vez de nomear suas igrejas específicas. Ainda há muito preconceito no país com religiões que usam uma bebida psicodélica. Tudo isso faz com que os dados do censo de 2010 não sejam muito úteis para estimativas precisas sobre o número de bebedores de ayahuasca no Brasil.

Além disso, o uso da ayahuasca no Brasil de hoje extrapola o conceito de afiliação religiosa. O crescimento mais recente no uso da ayahuasca no Brasil parece estar fortemente ligado à ascensão dos grupos neoayahuasqueiros (um termo cunhado pela antropóloga brasileira Bia Labate em 2000). Eles se identificam como “xamânicos”, “neoxamânicos”, “ecléticos” ou “ecumênicos”, e se inspiram em muitas referências culturais e rituais diferentes. Não é raro que, embora registrados legalmente como religiões, alguns desses grupos se declarem como não-religiosos, além de ser um tanto inadequado rotular o uso indígena da ayahuasca como “religioso”.

Além disso, existem rituais híbridos que combinam diferentes tradições. Neste momento, na cidade de São Paulo, por exemplo, pode-se participar de cerimônias de ayahuasca dentro de perspectivas diferentes – e mistas: indígenas, cristãos, afro-brasileiros, budistas, rastafari, hindus, e até mesmo tradições islâmicas.

Um universo tão intrincado pode ser fascinante para antropólogos e ayahuasqueiros, mas um pesadelo para demógrafos ou epidemiologistas. Como acompanhar o número de bebedores de ayahuasca no Brasil sem a ajuda de uma estrutura centralizada? Como estimar o número de indivíduos que experimentaram com a ayahuasca e aqueles que são usuários regulares?

Um universo tão intrincado pode ser fascinante para antropólogos e ayahuasqueiros, mas um pesadelo para demógrafos ou epidemiologistas. Como acompanhar o número de bebedores de ayahuasca no Brasil sem a ajuda de uma estrutura centralizada? Como estimar o número de indivíduos que experimentaram com a ayahuasca e aqueles que são usuários regulares?

A resposta mais segura sobre o número de pessoas que já beberam ayahuasca no Brasil é um estudo recente que foi financiado pelo governo brasileiro. O 3º Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira entrevistou 16.273 participantes com uma representatividade nacional da população geral dos 18 aos 65 anos. Foi realizado em 2015 e sofreu um embargo de publicação devido a questões legais e políticas.

Os participantes da pesquisa foram questionados, entre outras substâncias, sobre o uso da ayahuasca durante toda a vida, no ano anterior, e no mês anterior. Por causa disso, uma estimativa do uso da ayahuasca na população geral brasileira está disponível agora pela primeira vez. De acordo com o estudo, aproximadamente 567.000 indivíduos já usaram a ayahuasca pelo menos uma vez em suas vidas. Aqueles que confirmaram o uso no ano anterior foram cerca de 181.000; e no mês anterior, cerca de 118.000.

Os participantes da pesquisa foram questionados, entre outras substâncias, sobre o uso da ayahuasca durante toda a vida, no ano anterior, e no mês anterior. Por causa disso, uma estimativa do uso da ayahuasca na população geral brasileira está disponível agora pela primeira vez. De acordo com o estudo, aproximadamente 567.000 indivíduos já usaram a ayahuasca pelo menos uma vez em suas vidas. Aqueles que confirmaram o uso no ano anterior foram cerca de 181.000; e no mês anterior, cerca de 118.000.

Infelizmente, o relatório disponível não revela o intervalo de confiança para estas estimativas. Considerando que todas as prevalências estimadas representam menos de 1% de toda a amostra, os números precisos estão provavelmente dentro de uma ampla faixa entre os limites inferior e superior. Até agora, então, os dados disponíveis nos permitem dizer que, em 2015, aproximadamente 600 mil pessoas tinham usado ayahuasca no Brasil e cerca de 120 mil a tinham bebido no mês anterior à realização da pesquisa.

Arte de Karina Alvarez.

Levando em consideração todas essas informações e suas limitações, eu sugiro como uma estimativa razoavelmente precisa que o número de consumidores brasileiros regulares de ayahuasca deve variar entre 50.000 e 150.000 indivíduos

Levando em consideração todas essas informações e suas limitações, eu sugiro como uma estimativa razoavelmente precisa que o número de consumidores brasileiros regulares de ayahuasca deve variar entre 50.000 e 150.000 indivíduos. Mais uma vez, é importante ressaltar que, embora baseado em evidências disponíveis, isto nada mais é do que um palpite. 

São necessários mais estudos para termos uma estimativa mais precisa do crescimento do uso da ayahuasca no Brasil. Infelizmente, a administração federal conservadora e a epidemia de COVID-19 podem provocar cortes de custos no adiado Censo de 2020, o que poderia arruinar as comparações com 2010.

Independentemente do valor exato, os números são expressivos e é altamente improvável que qualquer outra nação do mundo tenha uma quantidade tão grande de usuários de ayahuasca.

Independentemente do valor exato, os números são expressivos e é altamente improvável que qualquer outra nação do mundo tenha uma quantidade tão grande de usuários de ayahuasca. A atitude pioneira do Brasil em relação à ayahuasca desde os anos 80 – regulamentando em vez de criminalizá-la – tem oferecido um enquadramento para o uso controlado do que pode ser considerado tanto um produto natural psicodélico quanto uma planta professora. Não tem havido relatos de “epidemias de drogas” ou de “seitas de lavagem cerebral” no país, e o uso ritual da bebida segue firme antes ou depois do atual governo de extrema-direita. Enfim, vida que segue no país da ayahuasca.

A versão original desse artigo foi publicada em inglês e pode ser acessada aqui.

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