23 de Septiembre del 2021
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Regina Célia de Oliveira, Ph.D., é bióloga, com doutorado em botânica pela UNICAMP e pós-doutorado no Kew Gardens. É professora na Universidade de Brasília (UnB), onde participa no programa de pós-graduação em botânica. Seu principal foco de pesquisa está na área da taxonomia.

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Christopher W. Fagg, Ph.D., é botânico. Trabalhou na Universidade de Oxford e atualmente é professor titular no programa de pós-graduação em botânica da Universidade de Brasília (UnB). Tem experiência com taxonomia, ecologia florestal e plantas medicinais da África e da América do Sul.

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Bia Labate, Ph.D., tem doutorado em antropologia. Publicou 23 livros sobre psicodélicos e plantas sagradas, xamanismo, religião, ritual, políticas de drogas e justiça social. É co-fundadora e Diretora Executiva do Instituto Chacruna.

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Julia Sonsin Oliveira, Ph.D., é engenheira florestal, com doutorado em ciência florestal pela UNESP. É professora na Universidade de Brasília (UnB). Seu trabalho foca na identificação de madeira, anatomia ecológica e comparativa de madeira, variação axial e taxonomia.

Em contraste com a grande quantidade de conhecimentos científicos e populares disponíveis na literatura sobre uma infinidade de tópicos relacionados à ayahuasca, parece que praticamente não há estudos sobre as próprias espécies das plantas que compõem a bebida.

Atualmente, há um enorme crescimento do uso da ayahuasca no mundo. A bebida parece ter atingido todos os continentes e, agora, está sendo consumida por celebridades e inserida na cultura mainstream do Norte global; entretanto, quando estamos falando sobre “ayahuasca,” sobre o que realmente nós estamos falando? A que tipo de planta nós, de fato, estamos nos referindo? Em contraste com a grande quantidade de conhecimentos científicos e populares disponíveis na literatura sobre uma infinidade de tópicos relacionados à ayahuasca, parece que praticamente não há estudos sobre as próprias espécies das plantas que compõem a bebida. E, no fim das contas, nós não sabemos sequer se estamos falando sobre a mesma coisa! Nós não somente conhecemos pouco sobre o cipó com a qual ayahuasca é feita, como também a própria  existência dessa planta pode estar sob ameaça. É por esse motivo que uma equipe multidisciplinar de pesquisadores, sediados, principalmente, na Universidade de Brasília (UnB), se juntaram para estudar esse tema. Além de capital federal, Brasília é, também, um dos principais exemplos urbanos do país no que diz respeito à diversidade de usos da ayahuasca.

Voltando ao básico: assim como nós todos sabemos ou ouvimos falar, a ayahuasca é geralmente feita pela união de um cipó – Banisteriopsis caapi — conhecido por diversos nomes populares no Brasil, como por exemplo jagube e mariri — com as folhas do arbusto Psychotria viridis, da família de plantas do café, chamada de rainha, chacrona, entre outros nomes.

Um importante ponto de partida dessa discussão está na distinção de conceitos que dividem as disciplinas. Por muito tempo, os antropólogos têm chamado atenção para o curioso fato de que os botânicos consideravam o cipó da ayahuasca como uma única espécie, enquanto as comunidades tradicionais reconhecem muitas entidades distintas. Entre informantes das religiões brasileiras que utilizam a ayahuasca em seu ritual, tais como o Santo Daime, a União do Vegetal (UDV) e a Barquinha, os cipós vêm sendo classificados em diferentes grupos. Aqui nós estamos considerando os dois principais, que são o grupo de cipós com nós inflados e não inflados (Fig. 1;2, respectivamente). É importante ressaltar que essa distinção, que pode parecer óbvia para alguns, não foi notada por muitos botânicos em seus herbários, uma vez que as amostras de herbário geralmente são obtidas somente a partir do ápice dos ramos. Então, nós percebemos que essa é uma observação muito importante e que a taxonomia do cipó necessita ser revisitada!


Banisteriopsis caapi é uma espécie Amazônica muito difícil de ser localizada na floresta. Para acessar uma ampla amostragem, a ideia foi a de combinar o conhecimento tradicional e a ciência formal. Isso pode parecer uma ideia óbvia para pesquisadores no campo das ciências sociais, mas historicamente, nem sempre foi o caso para diferenciar espécies de plantas. Com esse objetivo, nós conduzimos trabalhos de campo junto a informantes em diferentes comunidades ayahuasqueiras (Fig. 3;4) e coletamos amostras das plantas que eles usam, as quais vem sendo analisadas.

Infelizmente, a maioria dos conhecimentos dos povos indígenas ainda não foram sistematicamente organizados em forma escrita, ou aparecem em remotas e inacessíveis etnografias, e estes documentos não tem sido até o momento comparados e contrastados com o conhecimento botânico, geralmente por falta de amostras das plantas.

Resumindo, nós argumentamos aqui que existe a necessidade de uma reavaliação taxonômica da circunscrição do cipó conforme feita pela ciência formal com base nos tipos reconhecidos pelas comunidades tradicionais.

Resumindo, nós argumentamos aqui existe a necessidade de uma reavaliação taxonômica da circunscrição do cipó conforme feita pela ciência formal com base nos tipos reconhecidos pelas comunidades tradicionais. Considerando que a última revisão do gênero Banisteriopsis foi feita em 1982 pela pesquisadora norte americana Bronwen E. Gates, que nunca coletou o cipó na Amazônia, a necessidade de reavaliar a classificação das espécies parece óbvia. Adicionalmente, é necessário considerar que o caule do cipó não tem sido analisado pela ciência formal, tanto pela raridade quanto pela ausência desses nas coleções de plantas secas disponíveis nos herbários.

Nós estamos obtendo os dados através de entrevistas e viagens de campo guiadas com o propósito de coleta de amostras botânicas, que consistem de fragmentos de ramos, preferencialmente contendo folhas, flores e frutos, associadas com uma secção dos caules (Fig. 5;6). Em nossos trabalhos de campo nós percebemos que os membros das diversas religiões ayahuasqueiras tem um amplo, consistente e distinto conhecimento sobre os cipós usados na produção do chá (há muita variação de informações dentro e entre grupos, mas infelizmente não há espaço para esse nível de detalhamento nesse texto). Os informantes entrevistados reconheceram a existências de diferentes “tipos” de cipós e conhecem alguns caracteres morfológicos distintivos. Além disso, alguns dos grupos religiosos que nós entrevistamos tem preferência por alguns tipos de cipós específicos em seu ritual, ou tem diferente critério de acordo com a cerimônia a ser conduzida.

Segundo os informantes, a cor de folhas e o arranjo das pequenas glândulas nas folhas e pecíolos, a coloração da contra casca, a consistência do caule e a presença ou ausência de nós inflados, assim como a cor resultante no chá são importantes na distinção dos tipos de cipós (Fig. 7). Algumas pessoas têm reconhecido, inclusive, diferenças morfológicas entre plântulas! Importante sublinhar também que tipos de cipós são correlacionados com diferentes propriedades, resultando na produção de diferentes “receitas” de ayahuasca, com efeitos distintos.

Fig. 7: Chá com diferentes colorações: marrom escuro e marrom claro, dependendo do tipo de cipó utilizado (Rio Branco, Acre). Foto de Regina Célia de Oliveira.

Nós estamos usando várias ferramentas para estudar os etnotipos de cipós, incluindo morfologia externa dos caules, folhas, flores, frutos e plântulas, anatomia de caules e folhas, composição química e filogenia baseada no sequenciamento de DNA, no qual o código genético das espécies é estocado. As amostras estão sendo depositadas no herbário da Universidade de Brasília, onde estarão disponíveis para consulta.

O trabalho ainda não é conclusivo, e é válido notar que o mesmo tipo de cipó pode ter diferentes nomes entre distintos grupos religiosos e diferentes regiões do Brasil. Entre o grupo de cipós com nós inflados, alguns tipos são reconhecidos como “caupuri”, “caupuri de nó longo” e “pajezinho”; entretanto, há grupos que podem se referir ao “pajezinho” como “quebrador”, do grupo de cipós com nós não inflados. Entre o grupo com nós não inflados, encontramos: “tucunacá”, “ourinho”, “quebrador”, “roxinho” e “arara”, por exemplo. Interessante pontuar também que há registros de hibridação entre os tipos extremos de cipós com nós inflados e não inflados.

Análises preliminares mostram que há significativa diferenças morfológicas entre os cipós com nós inflados e não inflados, e a análise de suas sequências de DNA podem fornecer dados que reforcem essas diferenças, inclusive auxiliando na detecção dos híbridos entre as espécies. O reconhecimento da diversidade de “tipos” ou da variação entre os cipós é mais importante do que pode parecer, e isso não somente por recuperar a história e rotas de dispersão da espécie, bem como as trocas entre indígenas e pessoas mestiças, mas também para conservar a(s) espécie(s).

A conservação da diversidade dos tipos de cipós é essencial para a manutenção desse importante recurso genético.

A conservação da diversidade dos tipos de cipós é essencial para a manutenção desse importante recurso genético. Os cipós da ayahuasca precisam trocar genes entre indivíduos geneticamente diferentes da mesma espécie para manter sua vitalidade. Semelhante aos animais, nós não podemos cruzar irmãos com irmãs ou pais com filhos, para evitar que as espécies degenerem até a extinção.

Então, para conservar os cipós e, consequentemente, salvaguardar o desenvolvimento das comunidades, culturas e cerimônias ayahuasqueiras, nós temos que manter a diversidade de todos os tipos de cipó. Este objetivo pode ser bastante difícil de alcançar se não houver esforços para a manutenção dos tipos ao invés de apenas os mais fáceis de macerar manualmente ou os que provocam sensações mais agradáveis durante a experiência ritual. O problema da coleta excessiva, incluindo a derrubada da árvore hospedeira do cipó, enfatiza a importância da conservação e cultivo dos diferentes tipos de cipós ou espécies. Nesse tempo da expansão mundial da ayahuasca, é mais que urgente que foquemos atenção a esse tópico.

Esperamos ainda poder incluir estudos com os povos originários e seus conhecimentos tradicionais acerca dos cipós em novas etapas da pesquisa, de modo a abrir portas e janelas para a incomensurável riqueza de possibilidade que existem no campo da pesquisa acadêmica acerca da ayahuasca.

Agradecimentos:

Nós gostaríamos de agradecer nosso grupo de trabalho (pesquisadores e estudantes de mestrado e doutorado), que nos tem ajudado enormemente em várias etapas dessa pesquisa: Dulce Maria Sucena Rocha, Sueli Maria Gomes, Marisa Toniolo Pozzobon, Renata Sebastiani, Eloisa Dutra Caldas, Beatriz Wernek Lopes Santos, Nívea Nagamine Pinheiro e Thaís Aparecida Coelho dos Santos. Agradecemos também à Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal, que por meio do processo nº 193000881/2015 promoveu o financiamento que tornou esse trabalho possível.

Referências:

Gates, B. (1982). Banisteriopsis and Diplopterys (Malpighiaceae) Flora Neotropica Monograph No. 30. New York City, NY: The New York Botanical Garden Press.

Arte de Fernanda Cervantes.

Este texto foi originalmente publicado no site do Chacruna Institute, em setembro de 2018, sob o título “The Urgent Need to Review the Botanical Classification of the Ayahuasca Vine”.

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